Articulistas

Crise de identidade


| Tempo de leitura: 3 min

Em pleno contexto do unilateralismo dos Estados Unidos, as organizações e alianças internacionais parecem estar em ebulição. A Organização das Nações Unidas (ONU) conseguiu, graças a uma resolução de seu Conselho de Segurança, reconduzir o ultimato norte-americano ao Iraque. A União Européia (UE) decidiu por sua ampliação de 15 para 25 membros, como meio de cicatrizar as feridas da divisão causada pela Segunda Guerra Mundial, e sofre a pressão da candidatura da Turquia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) passa de 19 para 26 membros e agora apresenta-se como reformadora de antigos membros do bloco soviético. A Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que engloba todos os países do hemisfério, menos Cuba, decidiu, no Equador, cumprir seu calendário para entrar em vigência em 2005, enquanto várias cidades disputam o direito de ser a sede de seu secretariado permanente.

Portanto, superficialmente, a cooperação internacional e as alianças parecem ter uma notável atividade presente e um futuro brilhante. Em conseqüência, o mundo pode respirar tranqüilo, pois diversas redes de segurança estão prontas para evitar conflitos, promover o progresso e castigar (quando convier) os desgarrados. No entanto, diante de tanta glória aparente, não se enxerga os objetivos de tantos e diferentes emaranhados.

É óbvio que cada um dos esquemas mencionados tem características diferentes e capacidades distintas. E mais que o sucesso das redes internacionais, revela-se uma crise de identidade. As organizações internacionais estão desesperadas em busca de uma missão.

O trauma vivido pela Otan é emblemático. Mostra-se curiosa a reciclagem de uma organização que incluiu Portugal como fundador (na época a mais antiga ditadura européia de direita), e quase imediatamente incorporou a Turquia sob influência militar e abrigou a Grécia dos coronéis.

Enquanto isso, a UE mantém os critérios de democracia e economia de mercado como requisitos de admissão desde o início. Entretanto, a UE se debate entre sua natureza de “ser” Europa e uma opção de “livre determinação”, aberta a todas as candidaturas. Tenta-se passar de algo substancial, perfeitamente compreensível, como a influência de uma experiência de raízes greco-romanas e cristãs, com uma evolução para o estado de direito laico, para um direito de pertencer por vontade própria.

Quando se colocou em marcha a chamada Comunidade Iberoamericana de Nações pretendeu-se enfocar os aspectos culturais e históricos compartilhados. Depois, diluiu-se na duplicação de missões econômicas, sociais e, inclusive, vagamente políticas. A identidade cultural não interessa nem a Fidel Castro, nem a alguns mandatários latino-americanos.

Diante do desdém cubano pelos encontros iberoamericanos e a ausência de Castro na II Cúpula União Européia-América Latina-Caribe, torna-se incoerente que Cuba seja membro do grupo África-Pacífico-Caribe (ACP), sem poder assinar o Acordo de Cotonou, herdeiro de Lomé, e, portanto, não receber os benefícios de ajuda européia ao desenvolvimento. É como ser sócio de um clube de golfe, mas sem poder pegar nos tacos, o que contradiz sua razão de ser. Assim, convém ajustar os objetivos e missões das organizações internacionais, para evitar que derivem e caiam no unilateralismo, que a ninguém beneficia. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia na Universidade de Miami - e-mail: roy@miami.edu)

Comentários

Comentários