Tribuna do Leitor

Os meninos de Cingapura


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Outro dia, cheguei à universidade e me deparei com algo interessante que acontece todas as terças-feiras embaixo da primeira rampa de acesso aos blocos onde estão localizadas as salas de aula. Ali estava se apresentando um coral. No momento em que cheguei, cantavam uma lindíssima obra de Mozart. O coral fechou a apresentação com Aleluia, de Haendel. Até então tudo bem, ainda mais em se tratando de uma universidade, onde tal evento deve ser algo tão corriqueiro como os programas de baixo nível que imperam na TV brasileira, sobretudo aos domingos, ou até mesmo como a ladroagem que vemos no futebol brasileiro.

O problema é que havia uma multidão de nove (!) pessoas - contando comigo, senão ficaria igual ao Congresso em Brasília: não haveria quórum - para assistir tão bela apresentação. Enquanto o pessoal cantava muito bem, os alunos passeavam pelo local, conversavam e nem mesmo paravam um segundinho para apreciar. Lembrei no momento de certa vez em que estava passeando com alguns amigos do México e Guatemala pela Orchard Road, em Cingapura, e entrei no shopping do HMV (HisMaster’s Voice). Andamos por todos os andares do local e, quando entramos na seção de CDs de música clássica, o espanto! Além de a sala ser enorme, completamente fechada, com ar e carpete vermelho e repleta de obras dos mais diferentes artistas clássicos, a surpresa: o pessoal que estava todo sentado no chão ouvindo as músicas e olhando os CDs - mais ou menos umas 30 pessoas -, eram jovens de idade entre 15 a 18 anos! Meu Deus! Será que não tem CD do É o Tchan, Zezé di Camargo e Luciano, Maurício Manieri ou de Os Travessos naquela droga de lugar? Mas nem ao menos um Cdzinho do Belo? Não acredito, é o fim!

Enquanto isso, aqui em Bauru a moçada só gosta assistir grupo de rock ou forró (existe algo mais irritante do que aquele triângulo batendo na orelha?). Olha, não tenho nada contra tais grupos e até mesmo ouço rock porque também gosto do som. Mas a música não se restringe apenas a este ou aquele gênero.

Aqui no Brasil é só ligar a TV ou rádio que vamos escutar sempre as mesmas coisas horríveis. Agora tem um peão - nada contra peões, gosto de rodeio também - que fica falando cada besteira ao microfone que não dá para agüentar. As TVs só mostram os grupelhos fabricados de pagode e duplas sertanejas que ficam esgoelando na telinha. Nem de longe lembram grupos como Os Demônios da Garoa ou duplas como Milionário e José Rico. É duro constatar, mas é verdade. Cadê Marisa Monte, Gilberto Gil, Caetano, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso, Arnaldo Antunes, Fagner e tantos outros? Cadê os meninos da USC para ouvir Mozart e Haendel? Naquele dia, tive a impressão de sentir saudade dos meninos de Cingapura. (André Luis Arruda Plácido - aluno de jornalismo da USC - Pirajuí)

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