Para o cirurgião-plástico Valter Luiz Curvêllo é muito difícil que a medicina consiga fazer um transplante de tão grande porte como seria o transplante facial completo defendido pelo médico Peter Butler.
“Além de implicar em riscos enormes de rejeição, a face das pessoas tem características próprias. Uma pessoa que tem o arcabouço de nariz pequeno, se você transplanta um rosto com o nariz grande, no mínimo vai sobrar muita peleâ€, sugere.
Ele afirma que é muito difícil se pensar num procedimento de tamanha complexidade no momento. “Em vários anos, pode até ser que haja um transplante parcial, com sucesso em pequenas parcelas. Mas não imitar outra pessoa, isso é um absurdoâ€, declara.
A cirurgiã Telma Vidotto de Sousa também afirma que não é possível trocar de rosto. “Se o paciente sofre um acidente, uma mutilação grave, o que podemos fazer é ver o que sobrou das estruturas daquela face, reposicionar ossos e cartilagens e substituir o que foi perdido com próteses, preenchimentos, pinos e enxertosâ€, comenta.
Ela destaca que existem técnicas que permitem aumentar a produção de pele do próprio paciente e fazer transplantes de uma região para outra do mesmo corpo, como o transplante capilar e reconstrução do couro cabeludo.
“A bioengenharia nos auxilia com próteses e peças biônicas. É um ramo de estudo muito promissor para estes tratamentos. Mas transplante de face, para mim, é coisa de filmeâ€, defende.
O cirurgião Bashir Mussa Gazi também considera inviável a realização de um transplante de rosto, mesmo com todas as drogas imunossupressoras capazes de proteger órgãos transplantados. Ele lembra que a face é um todo, com pele, músculos, nervos, cartilagens, nariz, pálpebras, sulcos, orelhas, lábios.
“Como poderiam ser transplantadas todas estas estruturas, a não ser em bloco? Em outras palavras, teríamos que retirar a face como um todo de um paciente e remeter a outro. Como, sem comprometer vascularização, enervação, musculatura e pele?â€, questiona.
O médico ressalta que a medicina atual permite, realmente, transferir um determinado músculo do corpo de um paciente para outra região do mesmo corpo. Para isso, a artéria e outras estruturas são religadas ao corpo através de microcirurgias. Seguindo o raciocínio do médico, pode-se afirmar que seria necessário fazer uma infinidade de microcirurgias para restaurar todas as funções num transplante facial completo.
“Acredito que o doutor Peter Butler teve a intenção de chamar a atenção para o fato de que as limitações impostas pela cirurgia tradicional nos casos de deformidade facial severa devem nortear uma pesquisa mais aprofundada no assunto de transplantes de estruturas faciaisâ€, pondera.
Porém, para ele, as dificuldades para que isso se torne realidade vão além da esfera técnica. Moralmente, ele questiona como seria possível transferir uma identidade para outra pessoa tão distinta.
“Qual seria a reação da sociedade, da Igreja e até dos meios legais? Com qual rosto se apresentaria o cidadão a Deus no Juízo Final, perguntariam os religiosos. Acredito que a medicina está evoluindo muito rapidamente e que, em algumas áreas, a coisa poderia ser menos carnavalesca e mais práticaâ€, sugere.
Gazi cita o caso do transplante de mão realizado recentemente na França. A cirurgia - infinitamente menos complexa que a defendida por Butler - foi um sucesso tecnicamente. Em poucos meses, o homem já movimentava normalmente os dedos da nova mão. Algum tempo depois, porém, os médicos anunciaram que o paciente havia desenvolvido um câncer e que teria que amputar o membro transplantado.
“Naquele caso, não houve desenvolvimento de tumor. Na verdade, o paciente exigiu a retirada do transplante porque não se reconhecia com aquele membro. E olha que se trata de algo simplesmente imprescindível - a mão. Imagine isso acontecendo com o rosto...â€, observa.
O cirurgião salienta que existem inúmeras técnicas já clássicas na reconstrução de grandes deformidades. “Um exemplo é o retalho indiano com mais de 1.000 anos para reconstruções de nariz. Desacredito completamente de tal notícia e acho meramente especulativa e com a clara intenção de chamar atenção da mídia - coisas de propagandaâ€, conclui.