“Acho muito importante nos dias de hoje a gente se lembrar das coisas. Hoje, como se recebe muita informação, existe uma tendência a se esquecer determinadas coisas que foram feitas numa época em que não se tinha nem Internet. Era tudo feito à mão. Mas era o trabalho de uma paixão, de uma equipe muito antenada com a cidade. A população participava de uma forma que era inimaginável.â€
Com esta afirmação, o arquiteto bauruense Jurandyr Bueno Filho agradeceu por receber o prêmio Profissional do Ano, entregue na última quarta-feira pela Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag) de Bauru.
Durante a cerimônia realizada numa das obras de Bueno, a Universidade do Sagrado Coração (USC), um audiovisual mostrou ao público de mais 400 pessoas talvez o mais importante capítulo da história do desenvolvimento de Bauru: o período entre as décadas de 60 e 80, quando a cidade teve como prefeitos Alcides Franciscato, Edmundo Coube e Oswaldo Sbeghen.
Jurandyr ainda era estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP), quando trabalhou na elaboração do primeiro Plano Diretor de Bauru. Em 1969, Franciscato foi eleito prefeito e convidou-o para montar o primeiro Escritório Técnico de Projetos e Planejamento da prefeitura. Na seqüência, o arquiteto foi vice-prefeito de Coube e depois trabalhou mais seis anos na gestão de Sbeghen.
Foram 14 anos de trabalho que transformaram a cidade. Obras como a avenida Nações Unidas; o anfiteatro Vitória Régia; a canalização do Rio Bauru; o primeiro trecho da avenida Nuno de Assis; Terminal Rodoviário; avenidas Octávio Pinheiro Brisola e Pedro de Toledo; viadutos João Simonetti, Antonio Eufrásio de Toledo e Mauá (ampliação); os trevos da Nações Unidas e Nuno de Assis com a rodovia Marechal Rondon; o primeiro Pronto Socorro Municipal; as praças República do Líbano, Itália e Espanha, e os primeiros estádios distritais, trouxeram modernidade ao espaço antes ocupado por charcos e grandes erosões.
Para dimensionar o envolvimento da cidade com suas lideranças políticas, que não se limitava a diários convites para festas, almoços e jantares na alta sociedade ou na periferia, Bueno aponta que muitas obras foram totalmente custeadas pela população.
“A praça do Líbano foi feita com a participação popular. Quem pagou foi a colônia sírio-libanesa de Bauru. A praça Itália foi reformada com o dinheiro arrecadado pela Sociedade Dante Aleghieri junto à colônia italiana. A praça Espanha foi totalmente feita com o dinheiro doado pela comunidade espanholaâ€, revela o arquiteto, saudoso da grande interação que a população tinha com a administração e a sua participação tão efetiva no processo de desenvolvimento da cidade.
Segundo ele, existia um sentimento de paixão por Bauru e, naquele tempo, nem se falava em iniciativa privada. Não era “moda†captar recursos, mas todos colaboravam. Existia uma estimulação bilateral. O próprio viaduto da rua Pedro de Toledo chegou a ser apelidado de “viaduto da vacaâ€, por ter contado com a participação do povo na “vaquinha†para sua duplicação.
“Hoje não acontece mais nada disso e a gente vê uma cidade com sua auto-estima muito em baixa. A população era muito orgulhosa da cidade como um todo.â€
Por outro lado, Jurandyr Bueno Filho aponta não ser verdade o fato de muitos recursos chegarem a Bauru gratuitamente. “Não era verdade que tudo era dado por Brasília, de jeito nenhum. A Nações Unidas foi toda construída com empréstimo, só que com dinheiro bem aplicado. Para construir a avenida, nós utilizamos oito funcionários da prefeitura, e só. Um único advogado cuidou de mais de 500 desapropriaçõesâ€, argumenta, atribuindo aos dias de hoje um inchaço na máquina administrativa, que consome boa parte dos recursos do município, e salientando que pouco tempo depois a obra da avenida se pagou com os recursos dos impostos gerados pela valorização dos imóveis daquela região.
“A cidade é produto de seus cidadãos. Se isso que aconteceu no passado não for resgatado, nós vamos ficar vendo uma Câmara brigando porque o Legislativo comprou software de desenho arquitetônico. Onde nós estamos que o Poder Legislativo também vira corrupto?â€
O arquiteto usa o caso para explicar que o resultado das atitudes da sociedade e de seus governantes acaba refletindo no espaço físico. Dessa forma, no urbanismo a cidade nada mais é do que o reflexo no espaço das relações sociais que ocorrem em determinada comunidade.
Prêmio pedagógico
O Profissional do Ano espera que a entrega deste prêmio tenha uma função pedagógica, ou que pelo menos motive novos candidatos à prefeitura.
Ele revela que depois da festa muitas pessoas ligaram para sua casa dando idéias e sugestões. Inclusive de levar às escolas e universidades essa visão do que a cidade era e no que se transformou.
Bueno aponta que o momento pede uma efetiva participação popular, não apenas as de associações de bairros que acabam ficando burocráticas, mas uma motivação em massa.
“Para isso precisamos de uma liderança apaixonada, que motive essa massa. Nós temos que ser uma orquestra com um bom maestro. Eu acho que hoje somos uma banda com todos os instrumentos, só falta afinação e alguém regendo.â€
O arquiteto que edificou as mais importantes obras da cidade reclama da falta de novidades no setor arquitetônico e urbanístico de Bauru. Ele aponta que muita coisa que é entregue hoje, ainda é resquício de projetos da sua época.
Jurandyr ressalta que o Escritório Técnico de Projetos e Planejamento da Prefeitura, criado no governo de Alcides Franciscato, foi canteiro de talentos da engenharia local. Nele atuaram, nos anos 70 e 80, estagiários como Érico Braga, Orlando Lamônica e Luiz Fernando Nogueira Pereira, hoje construtores; o ex-prefeito e ex-deputado Tidei de Lima e Maria Helena Rigitano, que estava no primeiro ano de faculdade e hoje é titular da pasta do Planejamento.
“Nós fazíamos a cidade sem limites, mas hoje se perdeu o amor a Bauru. Nós esquecemos de tudo, somos tão limitados. Fazíamos investimentos técnicos em mão-de-obra local, criávamos técnicos para tocar as obras da cidade. Isso se perdeu quando um prefeito (Antônio Izzo Filho) resolveu importar mão-de-obra de Barra Bonita. Deu no que deu.â€
Bueno se recorda de que, a cada novo governo que assumia, era realizado um plano de ação, mostrado na Câmara e para a população, com a relação das obras a serem feitas. â€œÉ difícil você mostrar um plano; depois você pode cobrado por ele. Tínhamos a coragem de fazer issoâ€, revela Bueno, que não esconde a vontade de voltar a atuar diretamente no planejamento e na recuperação da auto-estima de Bauru.