Medidas práticas para combater a inadimplência, como o incentivo ao uso do cartão de crédito, e treinamento especializado de atendimento são as saídas para o comércio da cidade, que teria descoberto a força do consumidor, segundo o presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Carvalho, 48 anos de idade, há 30 anos trabalhando no ramo de vestuário.
Atualmente, a Acib conta com cerca de 450 filiados, a esmagadora maioria formada por micro e pequenas empresas que empregam diretamente algo em torno de 5 mil pessoas. Desde 1990 na presidência da associação, Carvalho espera do próximo governo uma atenção especial ao comércio - e não aos bancos - para que toda a cadeia produtiva receba os impactos positivos envolvidos no aquecimento das relações comerciais.
Jornal da Cidade - O setor de varejo está passando por momentos difíceis em função da alta generalizada de preços. Como o comércio está enfrentando isso, principalmente em relação ao Natal? Cássio Carvalho - Na realidade, nem todos os setores tiveram alta generalizada de preços. Os que mais foram atingidos são aqueles que dependem do dólar e os que dependem do ouro. Joalheiras, lojas de artigos importados, esses sofreram bastante. O setor de mercadoria nacional, que seria calçados e confecções, ainda não amargou essa alta de juros nem de preços. Nós estamos ainda com preços pouco elevados. A inflação do final do ano, que foi excessiva, abusiva, nós ainda não sentimos. Devemos sofrer esse impacto no ano que vem. Quem independe de dólar, de importação, não está sofrendo. O óleo comestível, por exemplo, é artigo nacional, mas como a cotação é internacional, o produto foi absurdamente elevado.
JC - Antes, o costume era de que as lojas apresentassem aos clientes formas de pagamento. Com o atual ambiente recessivo, o que mudou nessa relação cliente-comércio? O consumidor tem mais força para decidir como e quando pagar? Carvalho - Na verdade, o que acontece é que o comerciante descobriu a força do consumidor. O comerciante procura privilegiar o consumidor de todas as maneiras, procura se adequar aos vários tipos de clientes, porque cada um tem uma necessidade de pagamento, de modo como pagar sua conta, seja no cartão, no cheque pré-datado, no crediário próprio da loja ou por financeira. Você tem de agir dependendo do que o cliente pode. O que está sendo mais privilegiado hoje é o cartão de crédito, que é uma compra que facilita tanto para o consumidor, que tem o crédito aprovado na hora, quanto para o lojista, que fica mais seguro. Acho que esse é o futuro das relações comerciais: o dinheiro de plástico.
JC - O uso do cartão de crédito está sendo incentivado pelos lojistas? Carvalho - Está crescendo cada vez mais. E é quando nós vamos chegar à tranqüilidade de não ter inadimplência. Está crescendo absurdamente o número de cheques pré que voltam, o crediário próprio, às vezes a pessoa não paga, mas o dinheiro de plástico é sagrado em garantia.
JC - A inadimplência é ainda uma grande dor-de-cabeça para o lojista, mesmo com os vários recursos existentes para evitá-la atualmente? Carvalho - Quem disse que o cliente é ruim? Você fica sabendo que ele é ruim na hora em que ele fica ruim. Ele é bom até que se prove o contrário, mas de uma hora para outra, ele vira ruim. E o comerciante acaba arcando com prejuízo. A inadimplência vai ser sempre uma dor-de-cabeça, e se você conseguir fazer uma venda com dinheiro de plástico ou dividir no cartão de crédito seria mais seguro para o negócio.
JC - No dia-a-dia do comércio, quais são os grandes obstáculos para que uma venda não seja concretizada? Carvalho - O anseio ao consumo todo brasileiro tem. Ele muitas vezes vem à loja querendo comprar alguma coisa, mas sem disponibilidade de dinheiro. Acho que esse é o maior obstáculo: saber para quem você vai dar o crédito, para quem você vai vender.
O atendimento está se tornando cada vez mais especializado. A maioria das lojas dá cursos de treinamento para seus vendedores, cursos mostrando o produto que estão vendendo, porque você tem de conhecer o produto que está vendendo, independente do que seja, pois todos têm uma tecnologia agregada e é necessário saber o porquê dessa tecnologia, que benefício ou conforto traz. O vendedor tem de saber explicar tudo isso para seu consumidor.
JC - Na sua opinião, quais são as falhas do comércio de Bauru, especialmente o pequeno comércio, de estrutura familiar? Carvalho - Eu acredito que ainda falta para muitas lojas fazer treinamento dos vendedores. Têm muitas lojas em que você vai comprar um eletrodoméstico, por exemplo, e não tem as explicações necessárias. Você pergunta como funciona e o vendedor dá uma explicação “fajutaâ€, não entra em detalhes. Em todos os setores existe uma falha de explicação, são poucas as lojas que conseguem dar essa explanação para o cliente. Nós procuramos fazer cursos de treinamento na Acib, de capacitação para o vendedor, mas é uma coisa ainda incipiente. Acabando nossa reforma, devemos implementar para fazer valer esses cursos.
JC - Qual é o grande diferencial do pequeno comércio em relação a grandes lojas de departamentos? Carvalho - Creio que 99% dos associados da Acib são pequenos e micro empresários. Realmente, esse sofre um pouco mais. Alguns estão fazendo a diferença, fazendo autogestão, dando treinamento a seus vendedores. O pequeno comércio tem a vantagem de estar a frente de seu negócio, tendo um contato direto com o cliente. O cliente quer ser bem atendido, quer saber quem ele é, quer ser tratado pelo nome, quer ser o “reiâ€. O pequeno negócio tem muito mais condições de fazer isso do que o grande, pois conhece muito mais sua clientela. Isso sempre foi a grande vantagem do pequeno. Por isso que é necessário saber como crescer, porque muitas vezes o pessoal cresce e acaba se arrebentando, porque cresceu de forma errada.
JC - Quanto às mercadorias piratas, principalmente no caso de eletrônicos e de produtos “de marcaâ€, atrapalham as vendas do comércio, especificamente em Bauru? Como a Acib tem atuado em relação a isso? Carvalho - A Acib não atua diretamente nesse setor. Ela sabe que existe, sabe dos problemas, não acusa os comerciantes e não acredito que vá deixar de existir. É um problema crônico, ainda mais em final de ano, que o pessoal traz muitos importados, muita coisa contrabandeada do Paraguai, além de muita coisa pirateada. Em São Paulo tem muita gente que fabrica produtos Nike e que, na verdade, é cambalacho. Mas isso é colocado mais em camelô, nesse tipo de comércio. A perda grande é para o fabricante. O comerciante sofre uma ocorrência desleal, mas não tem capital empregado nisso. Ele vai sofrer quando quem concorre com produto similar contrabandeado ou pirateado próximo dele. Mas quando isso é detectado, o comerciante vem até nós, para através dos órgãos competentes, principalmente a Receita Federal, inibir esse comércio ilegal.
JC - Quais são as expectativas da Acib em relação ao futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT)? Carvalho - Esperamos o que não conseguimos com o governo Fernando Henrique Cardoso. Ele privilegiou os banqueiros, em detrimento do empresariado. Os empresários, quase todos, se arrebentaram no governo Fernando Henrique e amargaram uma inadimplência altíssima que foi criada. Espero que o Lula procure privilegiar o empresariado, que assim ele estará privilegiando também o trabalhador que está diretamente ligado ao comércio e à indústria. Se ele fizer isso, está de bom tamanho. O Fernando Henrique fez o Simples, está ampliando o Simples para a área de serviços. O governo Geraldo Alckmin (PSDB) está ampliando o Simples paulista, que eleva o teto da microempresa de R$ 120 mil para R$ 150 mil o faturamento no ano. São coisas que vêm melhorando a situação do pequeno e microempresário, que realmente sustenta a nação.
JC - Que medidas práticas poderiam ser tomadas pelo próximo governo para incentivar o comércio? Carvalho - Na prática, o ideal seria que o novo governo conseguisse aumentar o salário, que é diluído e absorvido rapidamente pelo comércio mas não é absorvido pelo governo, que tem que pagar o aposentado. Quanto mais dinheiro houver em circulação, para o comércio é melhor. Se houver crédito mais barato, também é melhor, pois falta capital de giro no comércio. Existe já alguma coisa, mas é limitada. Tem muita gente que deve imposto para o governo, mas reescalonando essa dívida, refinanciado, essas empresas deixam de ficar inadimplentes, o que ajuda as empresas a tomar novo crédito na praça.
JC - E na esfera municipal, que atitudes poderiam ser tomadas para incentivar o comércio da cidade? Carvalho - A grande idéia, que foi colocada no projeto Bauru+10, que deve ser estudada e bem arrojada, seria o desenvolvimento da parte turística, com atrativos de um shopping maior, e que saísse o shopping na antiga Estação Ferroviária. A prefeitura já tem atuado junto com o Calçadão, tem trazido, através da Secretaria de Cultura, atrativos para o centro, shows, bandas, coisas que realmente trazem o público para o Calçadão.
Apesar de ter mercado, lazer e tudo mais no centro comercial, as pessoas ainda fogem de morar na região. Falta uma consciência do empresariado de deixar uma vitrine acesa à noite, trazer coisas de lazer para cá. Não acredito que voltem os tempos antigos, mas é uma maneira de fazer com que voltem a freqüentar o Calçadão à noite, ver vitrines, ter o hábito de conhecer esse lado.