As relações difíceis entre intelectuais e políticos têm uma longa história. Sócrates, o pai da razão ocidental, foi obrigado a beber cicuta pelos democratas atenienses. Napoleão I, velho de guerra, homem de ação, desprezou intelectuais aos quais chamava pejorativamente de “ideólogosâ€. Com o advento da sociedade capitalista moderna, o papel dos intelectuais, nos conflitos entre as classes, passou a ser objeto de cuidadosa reflexão. É um tema clássico da sociologia. Weber, Mannheim e Gramsci deixaram análises memoráveis sobre o papel dos intelectuais na sociedade contemporânea. Gramsci, pensador marxista inovador, refletiu sobre a dominação social e o exercício do poder político. Suas análises históricas marcaram a tradição do pensamento da esquerda. A dominação social, supõe idéias, projetos, representações sociais hegemônicas. A dominação política da classe burguesa se exerce com hegemonia.
A longa tradição do racionalismo ocidental nos obriga a pensar a ação política comandada pela razão. Não se concebe a prática política sem projeto, sem teoria que informe as ações dos homens. Até a utopia, que projeta nossos sonhos no futuro, deve partir de consistentes análises da realidade. No Brasil, as relações entre políticos e intelectuais, especialmente as relações entre acadêmicos e políticos, nunca foram fáceis. Cientistas sociais de toda gama produzem o melhor das interpretações de nosso processo político social. Avaliam e criticam os diversos aspectos da nossa complexa realidade social. Na história recente, os anos sessenta e setenta produziram uma nova compreensão da sociedade brasileira. Fernando Henrique, nos seus escritos sobre a política brasileira, mostra como a nova visão crítica do país só chegou à política e ao discurso popular no bojo da luta contra a ditadura no início dos anos oitenta. A produção teórica crítica comandou, a luta contra o regime militar e o processo de redemocratização. Ajudou a construir a Constituição de 1988. As novas teorias sobre o Brasil e o mundo globalizado, em seguida, orientaram as políticas de estabilização e as reformas do Estado brasileiro.
Alguns acadêmicos padecem do cacoete de ter o olhar voltado para o passado. É difícil refletir sobre o futuro. Esta dificuldade atinge de forma avassaladora a maioria dos políticos. O pragmatismo enreda o político nos embates cotidianos. Muitos intelectuais e a maioria dos políticos padecem do mesmo mal. Agir sem refletir sobre o futuro que queremos e podemos construir para nosso Brasil. Este é o grande desafio da política neste início de século.
Julgar a ação política, no calor dos acontecimentos, não é, também, o forte de muitos de nossos intelectuais. Os políticos têm sempre uma melhor percepção da realidade concreta da política. O intelectual sofre do afastamento do poder e da precária militância política. Quando falam da política, falam à distância. Desconhecem, quase sempre, a prática concreta e cotidiana da política. Não estão atentos ao esforço pelo pleito do voto e o corpo a corpo com o eleitor. São mais atentos ao jogo complexo dos interesses representados no executivo e no legislativo. Apreciam, como todo o povo, o jogo do espetáculo eleitoral. O descentramento do poder e da política tornam os intelectuais presas fáceis da utopia e da abstração.
Fernando Henrique assumiu o governo com uma clara compreensão da nossa realidade política e social e das potencialidades e dos entraves do mundo globalizado. Se não conhecia tudo sobre o poder, acabou por aprender rapidamente. Teve dificuldades sérias no manejo do poder. Tomou as decisões políticas necessárias e possíveis. O PT parece assumir o poder apalpando sem rumo. Emir Sader, intelectual emérito e petista de carteirinha, soa o alarme. “Entramos num novo período político sem elaboração teórica à altura dos desafios postosâ€. Sugere aos petistas, “reapropriarmos do que é hoje o capitalismo no Brasil, com seus processos de acumulação de capital, de reprodução social, de representação política, de expressão cultural, de dependência externa, para alimentar nossa luta por um outro Brasil possível.†Tarefa árdua. Ansiedade imensa...(O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)