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O cidadão global


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Estamos vivendo no “contra-século”, como dizem os economistas. Em Portugal, na União Européia e no mundo. A recessão no Japão - para falar do mito (desfeito) dos chamados tigres asiáticos -, nos Estados Unidos, no Canadá e agora na União Européia, com a séria crise na Alemanha, não mostra sinais de recuperação próxima.

As previsões para 2003 dos mais autorizados analistas são francamente ruins. A incerteza quanto ao futuro político do mundo condiciona negativamente os mercados e não anima os investidores a apostarem em projetos mobilizadores a médio prazo.

De vez em quando nos bombardeiam com a crueza de cifras e estatísticas sobre a situação do planeta. O último exemplo é um relatório do Fundo de População das Nações Unidas (FNUAP), que confirmou o que já sabíamos: a correlação profunda entre a natalidade (em alta nos países menos desenvolvidos) e a pobreza. Em um mundo com mais de seis bilhões de seres humanos existem três bilhões que vivem com dois dólares ou menos por dia, praticamente na miséria.

Isto significa que a pobreza está aumentando, ao contrário do que nos haviam prometido, em proporção à concentração da riqueza nas mãos de cada vez menos empresas multinacionais e pessoas. Mesmo nos países mais ricos e desenvolvidos, as manchas de pobreza se alastram, bem como a exclusão social, a marginalização dos “velhos” e “novos” pobres, o estado de conflito, a violência e a cada vez mais difícil integração dos imigrantes nas sociedades de mercado, desumanas, onde o desemprego cresce.

O desequilíbrio profundo entre ricos e pobres em todas as esferas agravou-se perigosamente nos últimos anos por causa da globalização neoliberal. Portanto, se não se inverter essa marcha em escala mundial - e não há indícios de que a virada seja provável - nos aguardam grandes explosões de violência, insurreições, ódios, aumento do estado de conflito social nos países ricos e um fosso cada vez mais profundo entre países, regiões e até continentes ricos e pobres.

Aos pobres não falta só dinheiro. Falta-lhes, principalmente, apoio, solidariedade, serviços sanitários gratuitos, educação, campanhas eficazes contra a aids e outras pandemias, bom governo, luta contra a exclusão social e a discriminação sexual. Tais condições não podem ser resolvidas no contexto meramente nacional e por isso exigem um novo ordenamento mundial baseado no direito internacional, na solidariedade e na Justiça, onde os valores morais prevaleçam sobre a especulação desenfreada, o dinheiro sujo, os tráficos ilícitos, e a insensibilidade do egoísmo colocada como norma de conduta.

Tudo isto é o que a globalização desprovida de normas éticas ainda não deu, e não poderá dar enquanto as únicas regras do jogo forem as do mercado, ditadas pelos interesses dos mais ricos e dos mais fortes. A percepção desta verdade - e de que estão esgotadas as regras do neoliberalismo economicista - começa a iluminar as boas consciências, às vezes com independência de suas ideologias ou opções partidárias. É sinal de um novo fenômeno que está surgindo, o da cidadania global. (O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)

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