Articulistas

As coisas boas da vida


| Tempo de leitura: 3 min

Chegou a hora de desejar a todos, no Ano Novo, muitas virtudes e boas ações e alguns pecados agradáveis, excitantes, discretos e, principalmente, bem-sucedidos.

Mas não é só isso. É preciso desejar mais coisas boas para todos. Ganhar na loteria, por exemplo, é muito difícil e se todo mundo ganhasse não haveria um prêmio que valesse a pena. Mas vale desejar que o seu semelhante tome um excelente banho num bom hotel, vista uma roupa confortável e saia pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

Melhor, talvez, seja desejar que todos viajem, partam. Voltem. Quando se vive na Europa, voltar para Paris; quando se vive no Brasil, voltar para sua cidade. Não seria demais também você ir andando com um amigo por um lugar onde há um bate-bola e sentir que a bola vem redonda para o lado dele . Sem esforço, de repente seu amigo dá o chute perfeito e é aplaudido por você e pelos pedreiros da construção em frente. Consagração total. É assim que se deve desejar o bem ao próximo, sem grandes produções cinematográficas, de forma simples, singela.

Alguns goles de um bom suco geladíssimo é o que todo homem de bem pode desejar àquele que fez exercícios por mais de uma hora em baixo de sol à pino, ou àquele que trabalha carregando pedra. Mais tarde, um uísque de boa cepa escocesa que é para confortar os corações partidos.

Nesses tempos de insegurança não seria de todo mal desejar guardas nas ruas. Em todos os quarteirões, pessoas bondosas, educadas, prestativas e apresentando uma novidade: levando com eles auxiliares para outros fins, para tirar duvidas, dar sugestões, esclarecer problemas de direção. Não de direção relativas aos caminhos das ruas, das avenidas, das esquinas a seguir, pois disso cuidariam os guardas. Seus auxiliares poderiam sugerir sentidos mais interessantes para o caminho da vida. Dessa forma em um quarteirão poderia estar Eric Hobsbawm, no quarteirão acima ficaria Antonio Cândido, logo mais à frente Celso Furtado, cruzando a avenida, Norberto Bobbio, na praça, à direita, Raimundo Faoro, à esquerda Toni Negri, na travessa, Ferreira Gullar. E na feira, ao lado da barraca dos pastéis, Mário Vargas Llosa e Gabriel Garcia Marques dividiriam uma banquinha para atender o pessoal.

Desejar o bem para o Brasil também é fundamental e estratégico. Aqueles que não querem desejar o bem para o País por razões puramente humanitárias deveriam fazê-lo, pelo menos, por egoísmo inteligente porque podem vir a ganhar muito com isso.

De forma que, mais uma vez, desejo tudo de bom para todos. Para mim algumas coisas interessantes já estão acontecendo. Nesse texto, por exemplo, tive o auxílio inestimável de Rubem Braga que com a sua inteligência e elegância transformaram o meu trabalho em quase nada. Grande Rubem Braga, que usava como ninguém a caixa de ferramentas literária com todo o seu instrumental do estilo. E agora, deu para me poupar do trabalho. São coisas do Ano Novo. (O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado)

Comentários

Comentários