Ser

O cruzador das palavras

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Com vinte e poucos anos, ele descobriu o prazer de resolver os jogos de palavras publicadas nos jornais. Mas tempos depois, a forma como as tramas eram feitas se tornaram alvo de sua curiosidade e ao invés de preencher os quadrinhos para decifrar os enigmas, começou a criá-los.

Aos 75 anos, o cruzadista Evando Albiero, que trabalhou na estrada de ferro Noroeste do Brasil, foi professor de desenho técnico do Serviço Nacional da Indústria (Senai) em Bauru e coordenador de ensino da mesma instituição no Estado de São Paulo, há 34 anos colabora diariamente com o Jornal da Cidade.

Mesmo não morando mais na cidade e sim na Capital, todos os meses ele envia com antecedência um pacote de exercícios de português, geografia, química e cultura geral em forma de palavras cruzadas.

Para Albiero, 2003 começa de forma especial. O ano marcará a sua cruzada de número 10 mil no JC e, segundo revelou à reportagem, seu trabalho acaba de ser adquirido também pela revista Caras.

O cruzadista, que confidencia produzir seis quadros de cruzadas em apenas meia hora, conversou com a equipe do Ser e contou detalhes desta arte dominada por poucos.

Jornal da Cidade – Como as cruzadas surgiram na vida do senhor? Evando Albiero – Eu comecei a fazer palavras cruzadas logo depois que peguei gosto por tentar resolvê-las no jornal. Comecei a resolver e achei que poderia produzir. Neste meio tempo, o JC estava começando e resolvi oferecer as minhas primeiras produções. O jornal aceitou o meu trabalho e desde então sou colaborador do JC, há 34 anos. Lembro-me que naquele tempo eu e o Nilson (Costa) trabalhávamos na Noroeste e ambos tínhamos o hábito de resolver palavras cruzadas. Eu comecei a tomar gosto e ele me incentivou a produzir. O trabalho se desenvolveu rapidamente.

JC – Os quadrinhos eram feitos à mão? Albiero - No começo, quando o jornal era feito na linotipo, eu tinha três clichês (base de metal) de tamanhos diferentes. Eu produzia e mandava para eles. Mas com o tempo fui me modernizando e estou há tantos anos neste ofício.

JC – Como é buscar a diversidade de palavras? O senhor decora dicionários? Albiero – Não, eu não decoro. Eu tenho um dicionário de palavras cruzadas, mas eu pouco uso. O dicionário de cruzadas tem milhões de palavras para você escolher, palavras que raramente se vê no dia-a-dia. Eu não uso, comprei por curiosidade. Na verdade, tenho um dicionário de francês, inglês-português e um Aurélio. Agora, a maioria das palavras já sai da cabeça mesmo. A não ser quando quero uma palavra que não se usa todo dia consulto um dicionário. Muitas pessoas de Bauru já ligaram para mim pedindo para que use um pouco mais de palavras em inglês. O meu trabalho é voltado para os estudantes. Uso sufixos, prefixos, países, municípios, nomes próprios, símbolos de materiais. Essa é a minha base. Mas com 35 anos de experiência eu tenho uma facilidade muito grande.

JC – Na prática se monta uma cruzada fazendo primeiro as horizontais, depois as verticais. Existe um eixo principal ou se cruza uma para um lado, outra para o outro? Qual é a trama? Albiero – Eu jogo com as duas: verticais e horizontais ao mesmo tempo. Quando estou produzindo uma horizontal, já sei o que vai cruzar com ela e com a outra imediatamente. Essa é a minha forma de produzir. É um jogo que já está na cabeça da gente. Eu monto meia dúzia em 40 minutos! Já tenho as palavras-chave, mas sempre tem duas ou três que precisam ser pesquisadas. Outra coisa que costumo fazer é personalizar as cruzadas colocando nomes de pessoas de Bauru e coisas que dizem respeito à cidade. Para o trabalho de cruzadista você tem que ter uma visão rápida: você coloca uma palavra grande na vertical e outra grande na horizontal e o resto? Tem que estar na cabeça.

JC – A produção do senhor é diária ou tem dias que o senhor não tem a mínima vontade de cruzar as palavras? Albiero – Todo dia eu datilografo, faço os rascunhos. Todo o dia eu estou produzindo palavras cruzadas, por isso estou chegando no número 10 mil. No jornal estou no número 9.860. Aqui em casa já estou no 9.960. Tenho sempre uma quantidade pronta para mandar ao jornal. Este material vai cobrir até março, mas já estou produzindo as demais.

JC – A cruzada de número 10 mil será especial? Albiero – Eu estou pensando em fazer em homenagem a mim mesmo. Eu gosto de homenagear pessoas. Já fiz várias cruzadas homenageando pessoas de Bauru. Todo ano novo faço uma nova. Tenho vários tipos de quadrinhos e a cada ano acrescento modelos diferentes.

JC – O senhor tem o hábito de resolver palavras cruzadas? Albiero – Às vezes, houve um tempo em que gostava de fazer as palavras cruzadas do Estadão. A minha mulher gosta mais do que eu, mas aprendeu comigo.

JC – O que é preciso para gostar de cruzadas? Albiero – É como casar com uma mulher, precisa gostar. No começo, muitas vezes, eu resolvia. Agora com esses livrinhos que fazem uma palavra cruzada diferente da minha, não gosto muito não. Mas para gostar de cruzadas é como você gostar de escrever, você precisa de motivação. Eu gosto de fazer cruzadas. Para mim é um hobby que complementa minha aposentadoria. Mas já cheguei a trabalhar com cruzadas para diversos jornais em Araçatuba, Piracicaba, Jundiaí, Sorocaba (em dois jornais), Campo Limpo Paulista, duas revistinhas infantis que circulam aqui em São Paulo. Além da revista Caras que todo ano faz no dia 1 janeiro um especial com 150 cruzadas, do qual fui convidado a participar e eles compraram um pacote de 400 cruzadas do meu trabalho, que foi muito elogiado. Eu fiquei muito contente.

JC – E tão cedo o senhor não espera parar de tramar as letras? Albiero – Não, não paro não. Só paro se algum dia alguém resolver tirar meu trabalho do JC Cultura, mas acho que para agüentar quase 35 anos, o que faço deve ser bom. Você não acha?

Comentários

Comentários