Homofobia, racismo, sexismo, sectarismo são alguns dos muitos pecados que segmentos evangélicos, católicos da Renovação Carismática e outros grupos religiosos vêm praticando em nome de Deus.
Muitas vezes, passando por cima da Constituição brasileira que permite liberdade de culto religioso, liberdade de orientação sexual e a tipificação de racismo como crime, estes segmentos vêm apresentando ostensivamente em seus produtos de marketing um ataque frontal a outros grupos que não os deles.
A Igreja Universal, por exemplo, utilizando-se dos seus meios de comunicação, como rádio e televisão, apresenta diariamente situações envolvendo de forma pejorativa e estigmatizada as religiões afro-brasileiras.
Os ataques têm sido tão evidentes que, na Bahia, oito babalorixás (pais-de-santo) ingressaram na Justiça com ações contra a Igreja Universal do Reino de Deus exigindo direito de resposta, justamente pelos programas exibidos utilizarem símbolos e elementos do Candomblé como demonstração do mal. Os convertidos à Igreja Universal, na maioria das vezes, destacam que faziam rituais de magia negra, feitiçaria e bruxaria em terreiros de candomblé antes da conversão.
Recentemente, o padre Marcelo Rossi, versão pop da Renovação Carismática, teve o seu nome envolvido com discriminação homossexual. Segundo denúncias de Marcelo Padula, assessor do falecido ator Jorge Lafond, que encarnava o personagem Vera Verão, a sua saúde começou a apresentar complicações em novembro do ano passado quando ele se viu vítima de discriminação. Durante o programa Domingo Legal, do SBT, Lafond foi convidado a se retirar do palco durante a apresentação do padre Marcelo Rossi. O assessor do ator chega a insinuar que esse seria um dos principais motivos que levou o ator à depressão e acelerou a sua morte, em 11 de janeiro.
Há poucos dias, o Vaticano concluiu o documento “Nota doutrinal sobre alguns assuntos concernentes à participação dos católicos na vida políticaâ€, elaborado pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Bastante conservador, o documento estimula políticos católicos a defender a “cultura católica†se opondo a leis a favor do aborto, da eutanásia e da união civil de homossexuais.
É difícil acreditar que no século XXI discursos conservadores ainda encontrem com tanta eficiência ressonância na sociedade. Talvez, um dos maiores equívocos das religiões ocidentais é acreditar que a sociedade é toda igual e que as representações de Deus sejam apenas uma. É aí que surge o conceito de alteridade em que se tem o “nós†e os “outros†e, em conseqüência, a negação do outro e de seus valores.
Isso pode ser observado na própria ideologia cristã que tem como lema “amar ao próximo como a ti mesmoâ€. Esse “próximo†é aquele que comunga da mesma realidade, dos mesmos valores, da mesma sexualidade, do mesmo grupo étnico. Mas e o que não está próximo, que está distante, que tem outros valores? A estes, segundo os manuais cristãos, só resta a conversão e a negação de tudo aquilo que ele é. Este tipo de ideologia é por demais autoritária. No momento em que se fala tanto em violência, é uma boa hora de se entender que muitas vezes os gestos mais violentos estão limpos de sangue, mas exacerbados pela intolerância. Se tudo isso é em nome de Deus, é preferível viver sem. (O autor, Ricardo Alexino Ferreira, é jornalista e professor de jornalismo especializado da Unesp)