A discussão esquizofrênica em torno da ponte que partiu no Mary Dota vai acabar deixando de ser assunto político para se transformar num acontecimento histórico. Nunca se viu tantas comparações descabidas, acusações e pré-julgamentos que por certo vão deixar lembranças. Mais pela insensatez dos polemistas do que pela possibilidade de ter sido a ponte objeto de um estelionato eleitoral que os derrotados têm engasgado na garganta.
O leitor Ronaldo Luiz de Oliveira, que não conheço, em “A tribuna do leitor†de sexta-feira, demonstra que há vida inteligente nessa cidade ao explicar de maneira simples e clara o que ocorre. Peço licença para transcrever o parágrafo final: “um bloco de fundação (como o da supracitada ponte) só se rompe (devido a esforços solicitantes) por três motivos: erro de projeto, erro de execução ou uso inadequado (carregamento não previsto)... portanto, que alguém errou, errou... e errou feio!†Concluo que o problema é de engenharia. O prefeito é tenista e portanto nada tem a ver. Para que perder tempo com uma comissão de inquérito na Câmara que só tem poderes para julgamentos políticos? Mesmo que o prefeito tenha ordenado apressar a obra para entregá-la às vésperas do pleito, merece ser preso o engenheiro que o teria obedecido.
Com toda certeza vai sobrar para o Murillo Maringoni que, dizem, ter sido o autor do projeto. Falecido, jamais poderá se defender. Mas o currículo que deixou é capaz de enfrentar qualquer libelo. Maringoni foi um dos maiores calculistas de concreto do País. Mais de 500 pontes passaram pelos seus estudos, inclusive as do complexo do “Cebolãoâ€, em São Paulo. Nenhuma caiu. Deu problema justamente a Ponte do Mary Dota, na sua cidade, na travessia de um riacho imundo. “Se aconteceu com a ponte sobe o rio Tietê, que ficou meses interditada, por que não com a ponte do rio Bauru?†– perguntou o prefeito inconformado com tanta implicância. Seria mais poético compará-la com a Ponte de Waterloo, em Londres. A estrutura sobre o Tietê foi atingida num dos seus pilares por uma barcaça com 800 toneladas de cana. Pelo rio Bauru passam somente dejetos e nenhum bauruense conseguiu produzir algum com peso aproximado.
A Ponte de Waterloo foi construída pelos ingleses para comemorar a vitória de Wellington sobre o exército de Napoleão Bonaparte, naquela planície belga. A do Mary Dota foi erguida para dar a vitória a Nilson Costa, embora ninguém possa provar que tenha sido um fator decisivo. Por ironia, o dinheiro foi conseguido por Tuga Angerami – quando deputado emendou o orçamento da União e conseguiu liberar a verba. Justamente o grande perdedor da eleição, que nem se animou a explicar para os eleitores que a conquista era dele.
Melhor que esses dois personagens é relembrar Vivien Leight no papel principal do filme “A Ponte de Waterlooâ€, dirigido por Melvin Le Roy. O final da história comoveu o mundo: pobre e prostituída, reencontra seu marido (Robert Taylor) que sempre pensou ter morrido na guerra. Arrasada, ela se joga na frente de um carro e morre atropelada. A história ganhou o Prêmio Pullitzer de Literatura.
Essa passagem sobre o rio Tâmisa é um ícone para todos os ingleses. Foi construída há mais de um século. Lá ninguém errou no projeto ou na construção. Claude Monet ajudou a celebrizá-la quando a pintou na plenitude das suas cores, ao amanhecer. Obra prima do impressionismo. Tenho esperanças de que um dia a ponte do Mary Dotta – ou o que dela restar - possa inspirar pintores, poetas e prosadores a produzir algo de valor estético. Que falem sobre amores frustrados. Não importa. O final será sempre mais emocionante que as ficções políticas. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)