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A encruzilhada de Lula


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O governo que se instalou em Brasília já tem muito trabalho. O primeiro grande esforço do Planalto consistirá em articular apoios que garantam a eleição de João Paulo Cunha para a Presidência da Câmara. Entretanto, este caminho está intimamente ligado à eleição do Senado e aos arranjos políticos com diversos partidos, especialmente com as facções que compõe o PMDB, que não embarcou no governo Lula. Esta, porém, é somente a primeira batalha, pois as diferenças na Esplanada dos Ministérios podem se tornar um grande problema se o governo não realizar seu trabalho no Congresso a contento.

O governo abriga várias facções, desde nomes mais à esquerda, até nomes mais moderados. Conta, por exemplo, com o ex-presidente mundial do Bank Boston no comando do Banco Central, porém, também possui em suas fileiras um ministro do PC do B, que até pouco tempo acreditava que a Albânia comunista era um modelo de sociedade para o mundo. Por enquanto, ainda há clima de campanha e comemoração em Brasília, entretanto, a temperatura já começa a subir. A principal missão do governo Lula, assim como de qualquer outro grupo que chegasse ao poder, será o de realizar reformas. Aí começa o problema.

Partimos de um princípio. A realização de reformas estruturais é fundamental para um desenvolvimento sadio, dentro de um ambiente estável para o Brasil. Várias mudanças são necessárias, entretanto, mesmo internamente, o PT não encontra convergência no que tange a importantes projetos, como aquele referente à independência do Banco Central. Enquanto a equipe econômica, liderada pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, propõe uma estrutura independente para o Bacen, outros grupos da base governista se negam veementemente até a discutir a matéria.

A colisão que se desenha entre os diversos grupos que compõe o xadrez ministerial é uma bomba de efeito retardado. Somente ocorrerá liberação de recursos pela área econômica para atuação social se houver reformas que possam estruturar tal investimento. Como o PT sempre foi contrário a essas mudanças e os setores mais radicais não abrem mão dos privilégios que serão atingidos, provavelmente as tão propaladas mudanças estruturais não sairão do papel. Assim, o governo Lula terá dois caminhos a seguir: aquele trilhado por Sarney, ou aquele trilhado por FHC.

Explico. Sem reformas como a tributária, judiciária, previdenciária e trabalhista, um governo no Brasil tem dois caminhos a seguir: desenvolvimento financiado via inflação, o que seria o caminho já trilhado pelo governo Sarney, ou moeda estabilizada aliada a estagnação do desenvolvimento, ou seja, a herança da Era FHC. Como a ala mais à esquerda do governo deseja criação de empregos e desenvolvimento a qualquer custo e outra, liderada pelo ministro Palocci, preza pela estabilidade da moeda e dos preços, percebe-se que existem dois grupos em rota de colisão. Lula terá que optar por um dos dois caminhos, ou demonstrar a grandeza que se espera de um governante e enfrentar os privilégios dos grupos que lhe deram sustentação, aprovando as reformas necessárias.

Logo, se de um lado o presidente ceder as alas radicais, perde Palocci e sua elogiada equipe, o que pode fazer a inflação disparar. De outro, se não realiza as reformas e mantém juros altos para conter a inflação, pode perder apoio interno e ser acusado de se tornar um novo FHC. E a opção pela terceira-via? Lula está frente a uma encruzilhada. O presidente pode usar sua alta popularidade para conduzir o País pelas reformas necessárias, muitas vezes desgastantes para um governo, mas que geram bem estar logo à frente. O caminho mais perigoso, todavia, é um governante usar sua popularidade para se manter no poder sem realizar projetos concretos, confundindo governo e Estado com sua imagem pessoal. É o risco do populismo. Neste momento é imperativo que nos afastemos deste perigo e que o presidente coloque o país acima dos privilégios. Talvez seja nossa única alternativa de êxito. (O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado)

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