Os mercados financeiros vivem hoje uma certa paralisia em função da expectativa de uma guerra no Iraque. O mesmo acontece no lado real da economia da maioria dos paises no primeiro mundo. Decisões importantes de investimentos estão sendo adiadas diante das incertezas de uma economia estagnada na Europa e USA e de um futuro incerto. A grande exceção neste cenário pouco brilhante é a China que vive um processo econômico autônomo e baseado no crescimento de seu mercado interno.
Embora o discurso da maioria dos analistas contemple uma guerra rápida e vitoriosa contra Sadam Hussein, todos sabem que este será um conflito fácil de entrar, mas com enormes dificuldades para estabilizar a nova situação política no Iraque. Por isso pode-se sentir um cheiro de medo no ar.
Esta situação internacional está afetando de maneira importante o processo de recuperação da confiança na economia brasileira. A volatilidade da cotação do real em relação ao dólar é a melhor prova deste fato. Apesar da consolidação de uma imagem mais responsável do governo Lula no campo da economia, uma nova melhora na avaliação do chamado risco Brasil vai depender do conflito que se avizinha. Neste intervalo vamos continuar a viver com uma situação de escassez de divisas e de oscilações significativas na taxa de câmbio.
Nesta situação de poucas certezas em relação ao futuro não se deve esperar que os empresários brasileiros se aventurem a tomar decisões de investimento importantes. Mesmo em setores que já se encontram no limite de sua capacidade produtiva em função do crescimento de suas exportações. Este é caso de nosso setor siderúrgico, das industrias de papel e celulose e da agricultura.
Isto é muito ruim para a luta pelo controle da inflação que o governo elegeu como uma de suas prioridades. Na falta de maiores investimentos no aumento da capacidade produtiva vão aparecer focos importantes de inflação de demanda e facilitar o processo de aumento de preços por parte dos produtores. Em recente pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas 50% das empresas consultadas revelaram uma disposição de aumentar seus preços nos próximos meses. Nesta situação de desequilíbrio entre oferta e procura o Banco Central pode ser obrigado a continuar a aumentar os juros para reduzir a chamada demanda agregada.
O que estamos vivendo na economia brasileira é uma repetição do que aconteceu no período compreendido entre os anos de 1983 e 1989. Àquela época uma crise externa criada pala moratória mexicana em 1982 obrigou o governo militar a pisar no freio da economia para gerar, como hoje, superávits comerciais importantes. O então czar da economia, o deputado Delfin Netto, viu-se obrigado a escolher entre uma inflação maior ou um crescimento econômico razoável. Como o governo iria enfrentar um processo eleitoral livre das amarras institucionais da ditadura, Delfin optou pelo crescimento com aumento da inflação. O resultado desta decisão nós já conhecemos.
Como o governo Lula decidiu pelo controle da inflação, opção que acredito ser correta, a economia deve continuar estagnada e com aumento do desemprego e queda da renda real do brasileiro. Não existe mágica em relação a isto. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)