Todos quantos tenham freqüentado escolas em passado distante hão de estar lembrados daquele sônico refrão que a bem nutrida meninada de então entoava nos recreios escolares dizendo, curiosamente, “um, dois, feijão com arroz; três, quatro, feijão no pratoâ€, que todos cantavam sem que pretendessem enaltecer com isso tais deliciosas iguarias alimentícias, naqueles tempos bem fartas em todas as mesas, inclusive nas menos aquinhoadas, porque até então não havia desemprego, salário ínfimo e outra série de problemas marcados por pobrezas tão pobres que não permitissem à garotada se alimentar suficientemente, com bastante arroz, feijão, batatinha e até carne... Infelizmente, os tempos mudaram totalmente. Transformaram-se em tudo, transformando a todos. Já nem conseguem os céus enfeitar-se hoje com mais núvens azuis, das quais tanto carecem e merecem. Conseqüentemente, tem-se aí, a olhos vistos, uma carência totalmente debilitante, oferecendo mesas praticamente vazias, quase sem nada, o que obriga os meninos e meninas a mudarem o estribilho poético, gritando nos espaços, a plenos pulmões, “um, dois, três, feijão com farinhaâ€... Patenteando isso, dia deste um programa de televisão apresentou, com cenas absolutamente vivas, um grupo de crianças nordestinas, raquíticas e maltrapilhas, recebendo dos pais, como elas mal alimentados, pratos de papelão contendo simplesmente os dois ingredientes, tendo de indesejável contrapeso várias moscas e mosquitos esvoaçantes, tão perturbadores quanto os diminutos cardápios. E a dolorosa encenação não ficou nisso, completando-se, logo em seguida, com outra de inspirar lágrimas, pois que estampava, deitada num tosco caixãozinho mortuário, uma criancinha que, como várias outras, acabava de morrer de inanição, explique-se: fome não debelada antes que um anjo qualquer da equipe da “fome-zero†voasse até seu berço para socorrê-la do aspectro. Uma tristeza triste, sem dúvida e sem contestação. Flagrantes idênticos proliferam por ai, quase nada faltando para serem observados, pois o País é hoje uma imensa troupe de crianças que se exibem, de mãos estendidas, nos palcos da indigência alimentar e, portanto, as medidas programadas pelo comando do novo Governo da República não podem “dormir sobre berço esplêndido†porque a pobreza reinante não dorme. Então, é preciso andar, mas não de avião!... É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)
escolha sua cidade
Bauru
escolha outra cidade