Tribuna do Leitor

Vó Belinha e o Comendador


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Ter avó é ter presente um repleto arquivo do passado, transbordando experiência. Feliz daquele que teve em sua vida uma avó “Belinha”, como era carinhosamente chamada por seus netos, dentre os quais me incluo. A boa velhinha, apesar de ter sempre consigo a educadora vara de marmelo, era a fonte da experiência, onde todos, ao cair da noite, na época, sem televisão, computador ou vida noturna, íamos “beber água na fonte”, ouvindo seus contos e as mais variadas estórias. Em sua vã filosofia, uma das coisas que ela contava, sempre com uma pitada de ironia e que marcou muito, é que “um dia a galinha ia ter dentes e o homem menos dentes e outras coisas”. Certamente que com isso a vó “Belinha” assustava os seus queridos ouvintes, que aproveitavam entre um conto e outro para bebericar o seu saboroso café acompanhado do seu inesquecível bolo de fubá caseiro. Não é que passados muitos anos comecei a pensar e a entender que a vó “Belinha” estava certa e sua metáfora, sem maldade ou malícia, mais objetivava preparar a sua seleta platéia, para o futuro com as modernagens de hoje? Analisando o que estamos vendo nos dias hoje, se alguém falasse nas décadas de 60 ou 70 que no futuro o Brasil teria como presidente um operário, líder classista e sem qualquer formação universitária e mais, que enfrentou a elite dominante e que foi preso por policiais especiais da Segurança Pública e Forças Armadas e que foi processado por transgredir a ordem pública, com suas legitimas manifestações. Alguém acreditaria? Alguém diria, naquelas décadas, que poderia ver a cena que nós vimos! Um ex-operário, com sua extraordinária biografia de retirante nordestino, envergando um terno verde musgo, para não destoar da idolatrada farda verde oliva do exército brasileiro, ser ovacionado por carrancudos generais do exército, que lhe outorgaram a mais alta comenda da caserna, transformado-o num legítimo comendador com a entrega oficial da “santa comenda”. Isso eu vi, todos os brasileiros viram! Por isso, bateu a saudade da minha bondosa e boa velhinha vó “Belinha” e de sua vã filosofia, porque a galinha com dente, diante das mutações e avanços da ciência, se já não existe nos laboratórios alienígenas, não é difícil de ser feita a mutação; assim como o homem da época da vó “Belinha”, comparado aos dos tempos de hoje, têm em suas arcadas dentárias menos dentes. Porém, outras coisas já vimos e estamos vendo; só não temos a certeza do que está por vir; por isso, rendo as minhas homenagens à minha saudosa vó “Belinha” e também ao “Comendador”. (Carlos Alberto dos Rios - OAB-SP.47469)

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