Nas últimas semanas, têm eclodido em várias cidades brasileiras manifestações contra uma possível guerra norte-americana arquitetada pelo presidente bélico George Bush, que anseia acabar com o seu arquiinimigo Saddam Hussein. Várias entidades brasileiras têm encaminhado continuamente abaixo-assinados e, também, promovido passeatas e outras formas de se dizer não à guerra.
No entanto, existe um paradoxo em tais atitudes. Ao se tomar posições tão enfáticas contra uma possível guerra dos Estados Unidos, tem-se a sensação que internamente estamos em condições de alardear paz. A imagem de que o Brasil é um país pacífico, livre das guerras, já não se sustenta mais. Enquanto se pensa na guerra norte-americana, o Brasil vive hoje uma guerra camuflada, marcada pelo poder paralelo dos narcotraficantes, taxas elevadas de desemprego e desigualdades social e econômica acentuadas.
Os anos 90 expuseram o lado violento do Brasil, que vem apresentando uma linha ascendente em homicídios. No ranking internacional da violência, o Brasil ocupa o terceiro posto de país com o maior número de homicídios por 100 mil habitantes e o quinto entre os campeões de roubos. Os dados se baseiam na sexta pesquisa de criminalidade e sistema prisional da Organização das Nações Unidas (ONU), desenvolvida em 1997, que envolveu 60 países e 3,7 bilhões de pessoas. O Brasil não enviou seus dados para a pesquisa, mas foi possível cruzar as informações dos demais países com a realidade brasileira. O que revelou que o Brasil tem quatro vezes mais homicídios e roubos do que as médias mundiais.
Outro dado alarmante, que demonstra que o Brasil vive uma guerra silenciosa, mas desastrosa e trágica, é quando se compara o número de soldados mortos na guerra do Vietnã com o número de homicídios no Brasil. Em dez anos de guerra no Vietnã, de 1964 a 1974, os Estados Unidos foram derrotados e debitaram 55 mil soldados mortos. Somente no ano de 1998, o Ministério da Justiça divulgou estatística em que se constatam 41.800 mortos por violência em todo o Brasil. Um outro fenômeno que marcou também os anos 90 e vem se mantendo no século 21, são as chacinas, que envolvem a execução de várias pessoas ao mesmo tempo e de forma brutal. De 1994 a 2000, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que criou a Coordenadoria de Investigação sobre Homicídios Múltiplos e a Equipe Especial de Investigação de Homicídios Múltiplos, o número absoluto de mortos foi de 305, em 95 chacinas.
Frente a tudo isso, fica a sensação de que ao fazer movimentos tão eufóricos contra a guerra dos Estados Unidos se está varrendo para debaixo do tapete os índices de homicídios nacionais. A idéia não é propor indiferença a um conflito internacional. Tem-se consciência que entre os dois ditadores - um declarado, como é o caso de Saddam Hussein; e o outro travestido de democracia, como é o caso de George Bush - estão civis inocentes. Mas não é possível entender o porquê de não se indignar e se manifestar com tanta ênfase contra a guerra nossa de cada dia. (O autor, Ricardo Alexino, é jornalista e professor de Jornalismo Especializado da Unesp)