Menos crédito, arrocho e, principalmente, desemprego. Essas são algumas das conseqüências apontadas por representantes de vários setores de Bauru para a decisão do Comitê de Política Econômica (Copom) do governo federal de aumentar a taxa básica de juros (Selic) para 26,5% ao ano e aumentar os compulsórios dos bancos para depósitos à vista de 45% para 60%.
“Vai ser um ano perdido como foi 2002: um ano sem aumento de vendasâ€, aponta o presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Carvalho. Para ele, o principal impacto negativo para o comércio será a restrição de empréstimos - e o encarecimento das taxas bancárias -, o que deve refletir diretamente em aumento no desemprego. “Hoje não há condição de enxugar mais nadaâ€, diz.
Na opinião de Carvalho, a inflação continua alta principalmente porque o governo não tem “segurado†a elevação das chamadas tarifas públicas - custos que acabam sendo repassados para o consumidor. “A inflação não está ocorrendo por vontade do povo brasileiro, mas sim por culpa do governo em aumentar as tarifasâ€, declara.
O empresário João Maringoni, um dos diretores do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), acredita que a informalidade e também o desemprego nos setores de produção deve aumentar, na medida em que um funcionário registrado está cada vez mais caro para as empresas.
“Todos esses aumentos refletem no nível de emprego, porque o empresário não vê perspectivas de melhora, trabalha arrochadoâ€, diz.
Maringoni observa que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência foi baseada em um discurso de mudanças, como a reforma da Previdência e a Tributária. Mudanças essas que, na opinião dele, ainda não deram sinais de concretização. “Se não aprovarem as mudanças até junho, julho, não sei se farão isso até o fim do anoâ€, afirma.
“Dose exageradaâ€
O economista Wagner Ismanhoto defende que o aumento na taxa básica de juros é “um remédio certo mas em dose exageradaâ€. Segundo ele, a elevação da Selic era, de certa forma, esperada pelo mercado. No entanto, o que surpreendeu foi a alta na taxação dos compulsórios bancários.
De acordo com Ismanhoto, como os bancos vão ter menos dinheiro disponível para crédito, vai acabar se tornando um “produto caroâ€. “Quanto menos produto, maior o preçoâ€, observa.
Para o economista, será difícil para o governo cumprir a meta de inflação estabelecida para o ano: 8,5%. Isso porque janeiro foi um mês “sem controleâ€, com a inflação em torno dos 2%.
“Pela repercussão que teve a decisão (do Copom), o governo deve ter percebido que controlar a inflação e cumprir metas é importante, mas também é importante oxigenar sua economia para que ela possa fluirâ€, diz Ismanhoto. E completa: “O mercado está literalmente parado.â€
Em contrapartida, o economista se diz “otimista†para além do Carnaval, quando de fato “começa†o ano do brasileiro. Para Ismanhoto, a partir de março pode haver um reaquecimento da economia se o governo flexibilizar seus critérios e propor alternativas para afrouxar a corda que colocou no pescoço dos setores produtivos.