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Diretor do Senai 'radiografa' Bauru

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 9 min

Até o final do ano, Bauru ganhará um curso técnico voltado a todos os processos da produção gráfica. O curso está sendo implantado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), após radiografar os focos de “demanda reprimida” de emprego na cidade, segundo explica o diretor da entidade em Bauru, Reinaldo Munhoz, 41 anos, um ex-torneiro mecânico formado pelo próprio Senai.

Para Munhoz, há um ano e meio à frente da entidade em Bauru e há nove anos na unidade de Lençóis Paulista, a região é privilegiada por pólos como o gráfico e o automotivo, que garantem investimentos do Senai na formação de profissionais e, em contrapartida, empregabilidade de quase 100%, como expõe na entrevista a seguir:

Jornal da Cidade - Quais áreas o Senai identifica como promissoras em termos de emprego para os profissionais que se formam em seus cursos? Reinaldo Munhoz - O Senai como um todo, no Estado de São Paulo, identificou o seguinte: em função de todas essas correntes tecnológicas que a gente tem sentido, o mercado de trabalho se restringiu fundamentalmente a pessoas com uma boa qualificação. Mas não basta mais ter apenas qualificação, e nessa onda de demanda do conhecimento, o Senai está se preparando em relação a essas tendências. O Senai está priorizando a formação em nível técnico, embora a unidade de Bauru ainda não ofereça o curso com equivalência ao curso técnico, porque nós estamos exatamente definindo o foco. Porque veja: mais do que formar o técnico, embora exista o fenômeno da demanda, é saber onde está o foco. Uma das grandes coerências do Senai na criação dos cursos técnicos é radiografar toda a microrregião onde as unidades estão inseridas e, a partir dessa radiografia, dessa demanda verificada, a entidade propõe algumas ocupações profissionais, algumas modalidades do ensino técnico. Essa é a grande coerência do Senai.

JC - Mas o profissional com curso superior não sai em vantagem em relação ao técnico? Munhoz - A relação entre técnico e curso superior está muito ligada à característica da organização do modelo da indústria. Esse mito está muito mais ligado à reorganização do modelo de gestão da indústria, que hoje está ligado ao multiconhecimento, à multicompetência. O técnico está muito mais pronto para o fazer e para o pensar, na medida em que muitas vezes a graduação dá grande capacidade de pensar, mas o aluno acaba tendo limitações no fazer. A indústria hoje tem um papel fundamental na formação pós-escola do aluno, e na adaptação do aluno à realidade do mercado. Eu acho que o técnico tem essa vantagem: ele sai da escola com uma base de conhecimento teórico muito boa, mas tem a capacidade do fazer, da implementação. E hoje nós temos essa necessidade de ter ações rápidas, pontuais, precisas. Nessa competitividade em que vivemos hoje não é possível refazer algo. Você tem que fazer certo da primeira vez.

JC - O senhor falou em “radiografia” da cidade. Como é a de Bauru? Munhoz - Nós estamos em Bauru, nesse momento, em 22 meses de trabalho, fechando essas radiografias. Não adianta nós sairmos por aí instalando cursos. Pior do que não ter o profissional, é ter o profissional e não ter demanda para ele, é ter um profissional qualificado que não é absorvido pelo mercado. O grande lance hoje é ter a medida do tamanho das necessidades das regiões.

JC - Quais são essas necessidades em Bauru? Munhoz - Em Bauru, hoje, nós temos dois grandes sinais. O primeiro é a implementação de formação de profissionais técnicos para o setor gráfico. Nós estamos investindo aproximadamente R$ 6 milhões em Bauru para construir uma escola para o setor gráfico. Nosso foco está fechado no setor gráfico, mas estamos radiografando outras tendências, como por exemplo, o processo de automação. Você não pode entrar numa indústria de transformação, numa indústria gráfica, sem conhecer o processo de automação. São as áreas temáticas, centrais e as transversais. A coerência do ensino técnico é isso: ter o foco na demanda real específica e trabalhar com todas aquelas bases transversais do conhecimento, como automação, informática, eletroelerônica, manufatura. São áreas presentes em qualquer setor tecnológico.

JC - Como funcionarão os cursos? Munhoz - Os cursos técnicos do Senai trabalham com uma média de 32 alunos, mas há um projeto de ampliar nossa capacidade de oferta de vagas porque a demanda é alta, e o Senai trabalha com cursos técnicos gratuitos. Ele paga apenas uma taxa de inscrição e de material didático. O aluno paga, por semestre, R$ 160,00. Para o próximo ano, nós vamos ampliar 2,4 mil vagas além das que já oferecemos.

JC - Além do setor gráfico, em que outras áreas o Senai pretende investir na formação de profissionais? Munhoz - O setor que mais emprega em Bauru é a construção civil. Em segundo lugar, vem o setor gráfico. A construção civil foi também um foco de nosso estudo, um foco de necessidade de investimentos sistematizados. Nós estamos desenvolvendo um projeto, já aprovado, com ocupações cuja demanda já são sinalizadas, e nós temos que buscar o redimensionamento de outro perfil. É uma qualificação profissional que, na forma em que foi projetada, vai atender à nossa necessidade. Ou seja, é aquilo que Bauru precisa. Em Lençóis Paulista nós já mantemos um curso técnico de eletrônica, com ênfase na automação e na manufatura.

JC - Qual a porcentagem de alunos do Senai que são rapidamente absorvidos pelo mercado? Munhoz - Em função dessa característica, de partirmos do mercado para o Senai, de projetarmos os cursos a partir da demanda, praticamente 100% dos nossos alunos de cursos técnicos são empregados. Mas não porque esta escola é melhor que as outras, mas o mérito do Senai é que ele trabalha com uma base de pesquisa ocupacional. Nós formamos o aluno cujo perfil atende às necessidades da região, nós trabalhamos com comitês tecnológicos para definir os cursos. Nós montamos um comitê formado por empresários, por especialistas na área e, a partir deles, nós fechamos o perfil. E quando você tem um perfil na medida da demanda, tem empregabilidade de praticamente 100%.

JC - O chamado Sistema S, que inclui Senai, Sesi, Sesc, entre outros, parece não passar por problemas financeiros, ao contrário de quase todos os outros setores da economia brasileira. Qual a razão disso? Munhoz - É evidente que a política econômica mundial, essa nova ordem internacional, tem impacto sobre o Senai também. É preciso que se diga que o Senai acabou buscando alternativas na compensação de sua receita direta através da cobrança de alguns serviços. Hoje, o Senai cobra serviços que caracterizam especialização. Uma ocupação ou outra acaba sendo cobrada, as consultorias nas empresas são fundamentalmente cobradas. Isso garante uma receita de serviços, que é aplicada na escola. O que se pretende, na verdade, é a venda de uma solução. Nós trabalhamos hoje vendendo uma informação de material agregado muito alto. O que está sendo criado à luz da visão do empresário, que é o mantenedor do Senai e do Sesi, é buscar parceria com empresas para garantir a mesma qualidade. Essa é a solução: buscar parcerias com empresas.

JC - Mas o grande mantenedor do Senai continua sendo o setor industrial? Munhoz - Nós somos mantidos por uma receita compulsória que incide sobre a folha de pagamento. Então, é evidente que toda vez que há redução de postos de trabalho na indústria, o Senai perde receita. Nós temos então de criar alternativas. Fênomenos como automação ou terceirização recaem sobre a diminuição de postos de trabalho. O Senai está buscando alternativas de linhas de trabalho que vão além, que estabelecem ligação com a cadeia produtiva sob a ótica de valor agregado em informações tecnológicas, divulgação, difusão, enfim, geração de tecnologia.

JC - Qual a relação entre o Senai e o poder público? Munhoz - O poder público é nosso grande parceiro. No âmbito do ensino técnico, do ensino superior, que é uma de nossas vertentes, o Senai só consegue manter seu posicionamento porque buscou o alinhamento e parcerias com o poder público. Através de programas com a Secretaria das Relações do Trabalho, com a Secretaria da Educação, através de programas com as comissões municipais de emprego. As parcerias com o poder público federal, estadual e municipal são fantásticas. Nós temos um projeto em Lençóis Paulista com o qual produzimos alternativas didáticas para formação e montagem de escolas. É uma experiência em que nós estamos implantando modelos de unidades escolares em países como Timor Leste, Paraguai, Angola, Guiné-Bissau e são parcerias com o Itamarati. É o convênio com o governo federal que possibilita em países de língua portuguesa, em países pobres, a implantação de verdadeiros núcleos de excelência. Tudo isso é possível porque nós trabalhamos em conjunto.

JC - Voltando a Bauru, quando os cursos do setor gráfico estarão funcionando? Munhoz - Em novembro a escola já estará atuando, e atenderá em três níveis distintos. O primeiro nível trabalhará com a requalificação do profissional que já está atuando nomercado. O segundo nível vai trabalhar com a qualificação da comunidade, com as pessoas adultas que queiram buscar como ocupação o setor gráfico. E evidente que o terceiro, uma fatia extremamente significativa, é preparar as próximas gerações. Em todos os níveis: de aprendizagem industrial e de ensino técnico. Nós vamos atender a uma demanda que nunca foi contemplada.

JC - Há ainda outras propostas do Senai para o ensino na cidade? Munhoz - A área de eletroeletrônica, aliada à informática, se constitui numa base tecnológica que é a grande força motriz de qualquer atividade industrial hoje. Isso numa perspectiva futurista, pois o que nos propomos a fazer é o que já está sendo feito hoje: uma escola moderna, com laboratórios, cuja base tecnológica vem de empresas. Nós estamos buscando parcerias com empresas que geram tecnologia para fazer com que essas áreas transversais formem profissionais com novas competências, que partem não só da competência, mas da capacidade de ação, de intuição. Esse perfil vai trabalhar muito mais com as competências emocionais, do comportamento do profissional como indivíduo responsável, sabendo de sua importância de ação social dentro do organograma da empresa, do que simplesmente aquela competência técnica. Uma outra área que merece destaque é o setor automotivo. Nós temos o privilégio na cidade de contar com praticamente todos os escritórios regionais das grandes montadoras do Brasil. Temos em Bauru o centro tecnológico automotivo mais moderno hoje do Senai em todo o País. Toda essa aliança possibilita isso. A frota da região é muito grande e há demanda dessa competência de novo perfil, de um profissional com uma postura diferente.

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