Nos é ensinado pelos Evangelhos que devemos edificar nossa morada sobre a rocha e não sobre terreno movediço e, desta maneira, uma pessoa que deseje se empreitar pelas veredas da Sabedoria deve, a priori, procurar fundar os seus estudos em uma profunda tomada de conhecimento quanto aos conteúdos dos clássicos para, assim, poder visualizar com clareza o cenário contemporâneo, podendo percebê-lo não como um produto produzido a partir de um estalar de dedos ou como se a Civilização fosse algo que existe por si, mas sim, como algo edificado no correr dos séculos pelas obras das mãos e das almas de milhares de pessoas.
Todavia, muitos ao verem esta volúpia dos jovens e bem de nós, frente à velocidade das informações, dizem que o estudo dos teóricos e de suas respectivas idéias que nos antecederam, que deve ser legado unicamente ao estudo deve ser de especialistas, o que quer dizer em outras palavras tornar o conhecimento das humanidades uma coisa de excêntricos e as demais pessoas da sociedade deve ser portar como um bando de esquizofrênicos, que fica desnorteada a tatear por um mundo imaginário como se este fosse o “todo em siâ€.
Na contramão desta postura pedagógica, digo que a função do educador não é acompanhar os modismos que pairam em nossa época. Não é simplesmente falar do que está a nossa volta visto que a função primordial da educação é levar o aluno a transcender o seu tempo e compreender o mundo enquanto uma grande obra em construção que está há milênios em execução nas mãos de milhares de engenheiros e arquitetos, que nada mais são que toda a humanidade, digo, todas as humanidades.
A civilização não é fruto dos feitos de um grupo isolado de pessoas em um recorte temporal, mas sim o fruto do trabalho individual de milhões de seres humanos (muitos desses seres notáveis) articulados em uma grande teia de relações que se teceu no correr dos séculos. Uma teia feita de erros e acertos, de esperança e de trevas que se nós não tomamos conhecimento da forma de sua construção, acabamos por sermos devorados pela aranha do destino.
E mais. Nós só podemos realizar uma reflexão sólida a partir de uma experiência vivida, que uma reflexão só se faz com o que habita a morada do passado em uma articulação com as outras dimensões do tempo. Reflexão do tempo imediato movido por pulsões momentâneas nada mais é do que uma receita para o auto-engano e quando essa passa a ser adotada como metodologia pedagógica, como está sendo, temos ao invés do cultivo do intelecto, uma balburdia em um misto de visões confusas com retórica de botequim.
Nós só conseguimos projetar luz para o interior de nosso ser a partir do momento que somos capazes de ouvir o silêncio de nossa alma e nos tornamos humildes o bastante para sabermos que só obtemos um conhecimento seguro após longos anos de estudo. Mas, como para se conseguir uma vaga no mercado de trabalho basta que você saiba atender as pulsões do momento, sem necessariamente saber o que e o porquê se está fazendo algo, e muito menos estar preocupado com as implicações de seus atos, basta que sejamos papagaios e repitamos o que as pessoas que estão a nossa volta dizem.
Quanto aos que preferem a senda da sapiência, resta o silêncio e a morada da paciência no recôncavo da humildade, na santidade do anonimato, na tarefa hercúlea de compreender o mundo e de entender os papagaios que nada entendem e a tudo querem transformar. (O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor e ensaísta. www.jardimdeacademo.jex.com.br)