Bairros

Habitação não é apenas moradia

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 2 min

Uma das principais chaves para solucionar o problema da habitação em Bauru é deixar de pensar os núcleos apenas como produção de moradias. Essa é a opinião do arquiteto José Xaides de Sampaio Alves, professor do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“Habitar é muito mais do que ter um lote. Habitar se estende à qualidade da rua, aos espaços públicos, às áreas de preservação, aos problemas de infra-estrutura, à questão do transporte etc”, expõe Xaides.

Ele explica que grandes quantidades de pessoas em um espaço gera demanda em diversas áreas. “Se você vai colocar só lotes no mercado, você vai ampliar os problemas que a cidade já tem. Vai atrair um público e ampliar a demanda de carência em outras áreas”, diz o professor.

Para o arquiteto, o poder público durante muito tempo foi omisso em seu papel porque, a partir de 1979, a lei federal 6.766 já possibilitava a cobrança de qualidade nos núcleos. “A nossa atuação de gestão tem sido omissa em grande parte. Exige só o mínimo”, diz.

“O ideal seria que a praça estivesse próxima dos equipamentos públicos - escola, creche, posto de saúde, edifício religioso. Esses espaços coletivos precisam ter um espaço de amortecimento da demanda de população”, justifica.

Impactos

Outro aspecto importante para o sucesso na criação de conjuntos habitacionais é a análise de impactos ambientais, sociais e econômicos na região. “O conceito é o de uma cidade sustentável. Não é o de uma cidade que vai ficar para depois o poder público resolver as pendências”, expõe Xaides.

O arquiteto defende a reserva de áreas comerciais e outras voltadas para a geração de empregos nos próprios núcleos. “As pessoas vão até o centro para trabalhar. Não seria o caso de começar a pensar áreas para gerar empregos e atender à demanda localizada naquele espaço?” questiona.

“Talvez o grande equívoco que Bauru cometeu foi ter um planejamento praticamente centrado na produção de lotes urbanos”, enfatiza o professor.

A especulação imobiliária, segundo Xaides, foi a responsável pelas maiores tragédias dos conjuntos habitacionais de Bauru. Problemas ambientais no Núcleo Mary Dota e no Bauru 2000, por exemplo, poderiam ter sido evitados se as ruas e avenidas tivessem sido planejadas considerando a topografia do terreno. No Núcleo Fortunato Rocha Lima, por exemplo, as vias acompanham as chamadas curvas de nível.

Xaides sugere que as exigências referentes a equipamentos institucionais sejam baseadas na densidade demográfica prevista para a região (considerando a possibilidade de verticalização), em vez de cálculos baseados nas glebas.

Ele cobra, ainda, a regulamentação do Estatuto da Cidade em Bauru, que daria melhores condições de controle no planejamento dos núcleos.

O arquiteto cita o Jardim Redentor e o Núcleo Fortunato Rocha Lima como bons exemplos porque têm espaços públicos bem distribuídos em áreas centrais dos bairros.

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