Preto é aplaudido quando desfila em escola de samba ou demonstra boas performances no esporte. Fora daí, dificilmente alguém reconhece seu lugar na sociedade nos níveis mais altos. Provocaram reações contrárias - algumas até furiosas - as primeiras experiências com a reserva de vagas de ingresso à universidade para negros, pardos e alunos de escolas públicas. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro fez por cumprir a lei. Nada menos do que 57% dos aprovados entraram pelo sistema de cotas.
“Discriminação contra os brancos†- vociferaram alguns. “Rasgaram a Constituição†- bradaram os legalistas invocando o célebre preâmbulo “todos são iguais perante a leiâ€. Outros apontaram o risco de transformar a universidade em um novo quilombo. Não faltaram os defensores da auto-estima dos negros. O amor próprio deles sairia ferido com a esmola generosa. Alguns lembraram os trapaceiros. Estudantes se passaram por negros para se beneficiar do sistema. A maioria advogou o ensino público de qualidade - única via digna e democrática de acesso ao ensino superior.
Enquanto isso não acontece num País onde o ensino há dezenas de anos vem sendo sucateado e os professores proletarizados, há que se fazer alguma coisa para quebrar o círculo vicioso. No Brasil, negro e pobre se confundem. Sem meios de freqüentar boas escolas o negro é condenado ao ensino público. Despreparado, não passa nas universidades do Estado. Barrado das boas escolas é barrado dos bons empregos. Os filhos não têm saída. Perpetuam a história dos pais.
Como um neguitinho alimentado em criança com água doce vai poder competir com um branquelinho criado com leite Ninho engrossado com Neston? Enquanto o filho do remediado tem até computador para ajudá-lo nas lições de casa, o aluno negro ou pobre tem que se contentar com papel de embrulho para fazer a tarefa. Mesmo nos países civilizados, com renda per capita mais digna que a do Brasil, houve ou ainda há processo de inserção de classes marginalizadas. Pelo mesmo sistema de cotas. Em Washington, onde 70% da população é negra, as cotas existem não só para acesso às universidades ou concessões de bolsas de estudos como também para ingresso nos serviços públicos e particulares. Nos telejornais da TV da capital norte-americana os narradores e âncoras são negros. Os “coloreds†são artistas principais nas “soap-operas†(operetas de sabão) como são chamadas as telenovelas desde os tempos do rádio quando eram patrocinadas pela Palmolive. A grande maioria dos postos públicos de comando está nas mãos dos cidadãos de cor, a partir do prefeito. Em Washington o branco é que tem cota.
Para se chegar a esse nível foi preciso que várias gerações tivessem acesso ao ensino de excelência. A multiplicação foi se fazendo com naturalidade. Houve um tempo em que lá também se dizia com desdém - preto é preto. Como se os negros fossem responsáveis por todos os erros gerados pela falta de informações. Aqui, o andar de cima é sempre branco. O Congresso é branco. A diplomacia é branca. O ministério é branco. A universidade é branca. Generais, brigadeiros, e almirantes são brancos. Na TV sobra papel de doméstica para artistas negras.
O sistema de cotas não significa que os beneficiários vão vencer na vida sem fazer força. A luta pela igualdade de oportunidades na sociedade pode demorar mais de um século. Mas tudo começa pelo primeiro passo. Muitas dificuldades e resistências vão encontrar mesmo antes de obterem o diploma universitário. Brincadeiras dos colegas, discriminações dos professores. Sabe-se lá o que vem por aí da parte de brancos ressentidos porque poderiam ter sido melhor classificados não fossem as cotas. Sem falar nos “pardos†arrependidos porque não quiseram assumir a negritude.
A reserva de vagas foi uma grande vitória do movimento negro, mas a luta continua. A sociedade consciente composta por brancos, negros, amarelos e vermelhos tem o dever de não abandonar à própria sorte os primeiros beneficiados pela lei. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)