A discussão a respeito da necessidade e prioridade de um programa de combate à fome, à miséria e à desigualdade social vem sendo feita há tempo em nosso País e em todo o mundo civilizado. As discussões, quase sempre apaixonadas e tendenciosas, estimulam ideólogos, sociólogos, economistas, religiosos e políticos. A polêmica, que justifica a existência de movimentos, partidos e ONGs, tem sido determinante na agenda dos debates de fóruns globais realizados nos diversos hemisférios. No Brasil não tem sido diferente. A cada processo eleitoral, disputa sindical e/ou associativa, esta questão é recolocada com cores fortes e decidiu muitos pleitos.
Nas últimas eleições, assistimos à repetição do fenômeno: o combate à miséria, à redução da desigualdade e à geração de milhões de empregos pontificaram nos múltiplos debates e manifestações de todos os candidatos. Não tenho dúvida de que a proximidade e identificação do candidato Lula com esta relevante questão foi decisiva para transformá-lo no presidente de nosso País, envolvido que foi numa aura mítica. Foi ele próprio que, no final do segundo turno, anunciou que a esperança havia vencido o medo. A esperança dos miseráveis e desassistidos sociais se revelou maior, bem maior, que o receio dos que tinham algo a perder com a repartição anunciada.
O programa Fome Zero foi apresentado como a prioridade do novo governo e precedeu, inclusive, o anúncio dos nomes para a sensível e nervosa área econômica. O programa desde o início tem monopolizado a sociedade brasileira que, embora aplaudindo de forma entusiástica a proposta, assiste a reiteradas críticas de especialistas insuspeitos e comprometidos com o combate a miséria. Com dois meses de governo Lula, nos parece desnecessário reafirmar que é cedo para cobrar resultados definitivos e a solução de problemas crônicos que nos afligiam. Não é cedo, contudo, para que tenhamos a pretensão de mostrar que algumas lições que foram produzidas pelo PSDB foram esquecidas ou relegadas a plano secundário. Nos referimos ao exemplo de coragem e austeridade que tiveram os governadores Mário Covas e Geraldo Alckmin. Ambos empreenderam uma política de reorganização do Estado visando reduzir custos e otimizar resultados, ampliando e democratizando os benefícios auferidos.
A desestatização, tão criticada, foi fundamental para que o Estado de São Paulo - desobrigado de funções delegadas e efetuadas de forma satisfatória pela iniciativa privada - pudesse assumir, por exemplo, a finalização, equipamento e operacionalização de mais de uma dezena de hospitais. Secretarias foram e continuam sendo extintas e/ou agrupadas. Vários processos de demissão voluntária e estimulada foram oferecidos aos servidores. O resultado foi um enorme enxugamento da máquina pública, redução de despesas e, conseqüentemente, déficits menores. Enfim, uma máquina pública mais ágil, operacional e eficiente. Lula vai na contra-mão. Continua reclamando da herança recebida, dos desafios a serem superados e pede a todos uma colaboração irrestrita e integral. Não cumpre, porém, com a sua parte, quando reedita e incrementa o tráfico de influência, valoriza o Q.I. (quem indica) e busca a chamada governabilidade numa desavergonhada troca de cargos. Agindo assim, premia companheiros leais, mesmo que, para isso, tenha que ampliar ministérios, secretarias e cargos de confiança. A conta? Fiquem tranqüilos os brasileiros e brasileiras. Serão rateadas entre todos nós, seus companheiros ou não. Parece que neste governo a fome pode ainda não ser zero, mas zero é a nota que podemos dar à sua criatividade e capacidade de planejamento. (O autor, Milton Flávio, é deputado estadual pelo PSDB-SP. E-mail: miltonflavio@terra.com.br)