Oito parentes do presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Bauru e Região, Mário da Paz Pereira, prestam serviços à entidade que ele preside. Duas filhas e uma sobrinha dele são contratadas oficialmente, outros dois filhos, além do irmão, da cunhada e de uma ex-cunhada prestam serviço. O nepotismo escancarado tornou-se alvo de críticas, que vão além de favoritismo familiar.
“Acho imoral e preocupante a contratação de parentes dessa maneira. Ainda mais porque a responsável pelo departamento financeiro é filha deleâ€, explica Aparecido Manoel Pimenta, associado da entidade e ex-integrante da diretoria na gestão passada, encerrada em 2001.
O próprio Pereira confirma que sua filha Cilene Campos exerce a atividade, mas ressalta que ela e a irmã, Cíntia Campos, só foram contratadas mediante autorização da diretoria.
“Além disso, não consta no estatuto nenhuma recomendação ou proibição contra a contratação de parentes. Imoral para mim é quem ganha e não trabalha. Mas todos aqui dão o sangueâ€, rebate.
Contudo, na opinião do aposentado Arcôncio Pereira da Silva, que também já presidiu a associação e foi seu fundador, o quadro reflete os desmandos do atual presidente. “Ele transformou a entidade numa empresa particular e a diretoria é submissa a eleâ€, ataca.
Disputa política
Já Pereira não aceita a acusação e alega a revolta de seus críticos resultam de divergências políticas, já eles participaram da entidade e tentaram a reeleição sem sucesso.
“Sempre prevalece a opinião da maioria. Eles não se conformam com nossas conquistas. Quando deixaram à diretoria, a associação não oferecia nem sabonete para que os aposentados lavassem as mãos. Hoje, ela conta com enfermaria, departamento jurídico, farmácia etc. Eles tentaram se reeleger e não conseguiramâ€, contesta.
Discorda dele o ex-membro do Conselho Fiscal da entidade, José Wanderlei Posse, para quem a briga política é inexistente. “Respeitamos a vitória dele, mas passamos a observar os problemas dentro da entidade porque justamente trabalhávamos em companhia deleâ€, explica.
Segundo Pimenta, os adversários de Pereira tentaram informar os aposentados sobre o nepotismo e outros problemas identificados. Também tentaram organizá-los contra o atual presidente da associação. Contudo, diz ele, os inativos tem pouco acesso à informação e desconhecem seus direitos.
“Os aposentados se contentam em apenas participar do baile realizado todas as sextas-feiras e com tinta nova na parede. Eles não percebem os favorecimentos. Ninguém vê, por exemplo, que os parentes do Mário trabalham o horário que querem e saem no horário que querem. O salário é um mistério, ele nunca nos informouâ€, garante.
Pereira confirmou a contratação dos oito parentes, mas disse que não podia indicar seus vencimentos porque teria de consultar o departamento de contabilidade.
De acordo com ele, além das filhas, trabalham na entidade a sobrinha Andréia, a cunhada Rosa, o filho Sílvio, o irmão Sérgio e um outro filho que presta serviços de informática. Isso sem contar o entregador de medicamentos da farmácia, que é marido da sobrinha e não participou da soma dos favorecidos.
“Com relação a compra de equipamentos de informática, sempre fazemos cotação de preço. Quando eles são iguais, adquirimos da empresa do meu filho, em São Paulo, com a concordância da diretoriaâ€, confessa.
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Mudança do estatuto vai parar na Justiça
Entre outras irregularidades apontadas contra o presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Bauru e Região, Mário da Paz Pereira, está a alteração do estatuto da entidade durante assembléia considerada questionável. As denúncias, que tramitam na 5.ª Vara Civil da comarca de Bauru, são negadas por ele. O processo deve ser concluído em seis meses.
De acordo com a ação protocolada em agosto do ano passado por adversários de Pereira, um dispositivo do estatuto que definia o quórum das assembléias para a aprovação de matérias foi modificado. Antes da alteração, dois terços dos associados com direito a voto teriam que respaldar as decisões.
Depois dela, assembléias com qualquer número de associados poderiam aprovar propostas, desde que em segunda convocação.
“Depois dessa mudança, várias outras foram realizadas. Aprovaram, por exemplo, a remuneração da diretoria e a ampliação do mandato do presidente, que passou de dois para quatro anosâ€, explica o advogado dos ex-integrantes da diretoria da entidade, Márcio José Machado.
Segundo ele, as alterações ainda colocaram fim à autonomia do vice-presidente, que atualmente deve submeter suas decisões ao diretor, caso assuma interinamente.
“Isso mostra o perfil autoritário e ditatorial de Pereira. Com a ação, pretendemos que a primeira modificação ao estatuto, que desencadeou as outras, seja revertida. Para mudar o quórum nas assembléias, eles coletaram assinaturas insuficientes, através de um livro que ficou disponível na entidadeâ€, explica.
Pereira nega veementemente as acusações a garante que tem como provar as impropriedades. Com relação ao quórum para a mudança do estatuto, disse que abriu assembléia permanente por cerca de 50 dias, com publicação no jornal, e que coletou 1.800 assinaturas de maneira regular através de um livro ata.
“Tomamos essa iniciativa porque era muito difícil reunir dois terços dos associados em assembléia. Sem a participação deles, não tínhamos como decidir pequenas coisas. O trabalho da entidade ficava prejudicado. Agindo dessa maneira, meus adversários querem enterrar a associaçãoâ€, ataca.
Ele ainda enfatiza que a remuneração da diretoria teve aprovação unânime, inclusive do Conselho Fiscal, e que mesmo assim não foi implementada.
“O mandato do presidente foi alterado porque em dois anos não é possível iniciar e concluir um projeto. Aqui trabalhamos com programação. Já o vice-presidente continua com a autonomia que sempre teveâ€, garante.
À reportagem ele também disse que teria uma vida muito mais tranqüila se não presidisse a entidade, atividade considerada desgastante por ele. Mas como conseguiu levantar a entidade, diz que quando deixar o cargo vai trabalhar para que a associação seja conduzida por pessoas preocupadas com a situação dos aposentados, não como seus adversários.