Tribuna do Leitor

O CALIFA, O ESPELHO E A BARATINHA


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Havia um poderoso tirano e medíocre califa que morava num oásis bem no centro do deserto de Saara. Além de ser vaidoso, se admirava, julgando-se um dos mais belos da espécie da raça humana, enfim, um perfeito narcisista psicopata. Enquanto fazia a barba, como de hábito, batia um papo com o espelho mágico que havia sido roubado de uma caravana passante. Esse espelho puxa-saco atendia-lhe todos pedidos. Mas acontece que esse espelho era um “enrolado” e temia dizer a verdade.

Ele sabia de antemão que a palavra do califa não merecia a menor confiança, por isso mentia sempre. Finalmente, após a barba, costumava invariavelmente perguntar: - Espelho, espelho meu, existe alguém mais eficiente, mais belo e melhor que eu? Fala, oh! meu querido espelho! Rapidamente o espelho respondia: - Não, meu senhor do deserto, jamais existiu, tu és insubstituível! Tu és um ser supremo que todos veneram. Estás satisfeito, belo califa? Então, jamais te humilhes diante de tuas odaliscas ou dos teus servos, eles não têm a tua sagacidade e estão aqui somente para te homenagear oh! grande estrela, a tua cultura é insuperável. O espelho, dando uma de “economista”, disse: - Meu caro faraó, para que ninguém diga que sejas um corrupto ou ladrão, recomendo guardar a tua imensa fortuna nas Ilhas Cayman ou nos bancos da Suíça, como o fazem tantos salafrários “caixa 2”, certos coletores de impostos e “certas autoridades” do governo de Nero e de Júlio César, e que jamais tiveram medo de CPI, Comissão Processante ou inquérito que sempre acabam em pizza.

Mal acabou de fazer a barba diante do espelho mágico, feliz da vida, saiu de sua tenda ricamente decorada. Foi aí que apareceu a baratinha que estava escondida na areia num cantinho da tenda, levantou-se, esticou verticalmente as suas antenas e quase berrando dirigiu-se ao espelho medroso, perguntando-lhe: - Onde está a sua vergonha? Você que sempre refletiu com precisão todas imagens, como é que você tem a ousadia de elogiar esse patife, prepotente e presunçoso? Acho que você está precisando um analista.

Como resposta, o espelho disse: - Pois é, baratinha, você acha que sou tonto quanto a esse boçal? Não percebe que ele é um ganancioso, egoísta e abominável, que ignora o que seja uma nação? Ele é feliz e ao povo pouco se importa. Ora, se eu falar a verdade a esse estúpido ele poderá me quebrar em mil pedaços. Eu tenho que massagear a sua ignorância, falseando a verdade, se eu quiser viver. Enquanto minto, ele acredita e se engana, e assim, vou ficando inteiro. Se por ventura um dia ele descobrir a verdade, estarei partido em mil cacos, mas mesmo que a sua raiva ou desatino me destrua, jamais se arrependerá e não irá chorar a minha morte. Baratinha, esse é um dos notáveis desta república de “camelos e dromedários”. Saiba que esse é um dos grandes “Ali-Babás” que vivem neste deserto, que vivem na penumbra e não querem ver o “sol da verdade”, pois desta maneira ele também irá morrer feliz, aqui mesmo, nestas “quintas do inferno”. Esta é uma história das Mil e Uma Noites que jamais acontecerá no Brasil. Acredite quem quiser. (Alfredo Figueiredo)

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