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Desabrigados ocupam centro comunitário da Vila Ipiranga

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Treze pessoas das 30 que permaneciam acampadas há 15 dias na praça Jaime Bichusky, no Jardim Ferraz, ocuparam o centro comunitário da Vila Ipiranga na madrugada de ontem. Elas, que invadiram casas de propriedade particular, ficaram desabrigadas devido a uma liminar de reintegração de posse expedida pelo juiz Mauro Ruiz Daró.

Para viabilizar a instalação das três famílias no centro comunitário, o presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb), Rafael Gomes, abriu à força o portão de entrada e a porta do prédio, que estaria sob a responsabilidade da associação de moradores do bairro.

“Conversamos com representantes da associação, que não se sensibilizaram com o problema. Tentamos vários acordos. Como o mandado da entidade acabou há dois meses e não foi chamada uma nova eleição, decidimos pela ocupação. Agora, as famílias estarão mais seguras aqui”, explica o estudante.

De acordo com ele, a idéia era trazer todas famílias que há 15 dias estão vivendo em condições precárias sob lonas de plástico e suscetíveis ao frio, calor e chuva. Contudo, a maioria recuou no momento da transferência temendo as consequências da iniciativa. Duas famílias foram para casas de parentes e outras três permanecem na praça.

“Minha mulher tem apenas um pulmão e minha irmã tem problema no coração. Elas são muito doentes e não tinham como permanecer na praça. Por isso, decidi entrar (no centro comunitário) e garantir o mínimo de segurança a elas”, explica o carroceiro Waldemar Pereira.

Também alegando proteção aos desabrigados, a prefeitura municipal deve tomar providências que podem resultar num novo processo de reintegração de posse.

Segurança

Segundo o diretor da Divisão Administrativa do Departamento Social da Secretaria das Administrações Regionais (Sear), Jayme Luzia Filho, o centro comunitário precisa ser vistoriado pela Defesa Civil.

“As famílias correm risco ao permanecerem lá. Acionaremos a Defesa Civil para checar se o prédio é seguro. A telha está repleta de folhagem e pode cair a qualquer momento. O local não tem água e luz”, explica.

Jayme ficou ainda de definir junto com a Secretaria de Negócios Jurídicos outras providências que devem ser adotadas diante da ocupação. “O terreno é da prefeitura com permissão de uso da associação. Porém, a entidade legitimamente não está respondendo pela área porque o mandado se exauriu. Entretanto, a situação não garante a ninguém o direito à invasão”, observa.

Pensa da mesma maneira o ex-vice-presidente da entidade, Donizete Antonio da Silva, para quem a associação tem responsabilidade pelo local até a próxima eleição.

“Não concordamos com a presença deles (os desabrigados) porque tememos pela segurança dos moradores da região. Os comerciantes já vieram nos procurar porque estão preocupados com isso”, informa.

Foi justamente a desconfiança dos vizinhos do bairro ao lado que impediram a ocupação do prédio por um número maior de famílias.

“Estão dizendo por aí que somos maus elementos. Já estamos respondendo a processo e se ocupássemos o centro comunitário na calada da noite, o que diriam de nós?”, questiona a desabrigada Edite Maria da Silva.

Ela está desempregada e tem sobrevivido graças a colaboração de vizinhos que a têm apoiado. “Todos são trabalhadores e continuam batalhando mesmo nessas circunstâncias. Graças a eles, a nossa vida aqui no Jardim Ferraz melhorou muito. Antes, essas casas eram freqüentadas por marginais, que as depredavam”, conta Paula de Carvalho Costa, moradora da rua Cyro Wenceslau há quatro anos.

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Nova casa

“Finalmente vou dormir essa noite. Há 15 dias não prego o olho”. O desabafo do desabrigado Waldemar Pereira retrata a preocupação das famílias que enfrentam a angústia de não ter um teto para viver.

Embora saiba que a instalação é provisória, ele comemorava ontem à tarde seu novo endereço. As três famílias transferidas conseguiram organizar seus objetos pessoais a fim de que coubessem num salão de aproximadamente nove metros de comprimento e seis metros de largura. O centro comunitário da Vila Ipiranga ainda dispõe de dois banheiros e uma cozinha.

Enquanto isso, as famílias que restaram na praça Jaime Bichusky continuavam desoladas. “Vamos ficar aqui até que Deus nos ajude, porque se depender da iniciativa do prefeito e dos vereadores, ficaremos para sempre desamparados. Até as cestas básicas que nos foram doadas, sumiram. Não confio em mais ninguém. Adultos e crianças estão se alimentando à base de fubá e macarrão”, desabafa Edite Maria da Silva.

Por essa razão, a vizinha Paula de Carvalho Costa, que está assessorando o grupo juridicamente, recomenda que a comunidade auxilie os moradores diretamente na praça ou no centro comunitário.

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