Treze pessoas das 30 que permaneciam acampadas há 15 dias na praça Jaime Bichusky, no Jardim Ferraz, ocuparam o centro comunitário da Vila Ipiranga na madrugada de ontem. Elas, que invadiram casas de propriedade particular, ficaram desabrigadas devido a uma liminar de reintegração de posse expedida pelo juiz Mauro Ruiz Daró.
Para viabilizar a instalação das três famílias no centro comunitário, o presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb), Rafael Gomes, abriu à força o portão de entrada e a porta do prédio, que estaria sob a responsabilidade da associação de moradores do bairro.
“Conversamos com representantes da associação, que não se sensibilizaram com o problema. Tentamos vários acordos. Como o mandado da entidade acabou há dois meses e não foi chamada uma nova eleição, decidimos pela ocupação. Agora, as famílias estarão mais seguras aquiâ€, explica o estudante.
De acordo com ele, a idéia era trazer todas famílias que há 15 dias estão vivendo em condições precárias sob lonas de plástico e suscetíveis ao frio, calor e chuva. Contudo, a maioria recuou no momento da transferência temendo as consequências da iniciativa. Duas famílias foram para casas de parentes e outras três permanecem na praça.
“Minha mulher tem apenas um pulmão e minha irmã tem problema no coração. Elas são muito doentes e não tinham como permanecer na praça. Por isso, decidi entrar (no centro comunitário) e garantir o mínimo de segurança a elasâ€, explica o carroceiro Waldemar Pereira.
Também alegando proteção aos desabrigados, a prefeitura municipal deve tomar providências que podem resultar num novo processo de reintegração de posse.
Segurança
Segundo o diretor da Divisão Administrativa do Departamento Social da Secretaria das Administrações Regionais (Sear), Jayme Luzia Filho, o centro comunitário precisa ser vistoriado pela Defesa Civil.
“As famílias correm risco ao permanecerem lá. Acionaremos a Defesa Civil para checar se o prédio é seguro. A telha está repleta de folhagem e pode cair a qualquer momento. O local não tem água e luzâ€, explica.
Jayme ficou ainda de definir junto com a Secretaria de Negócios Jurídicos outras providências que devem ser adotadas diante da ocupação. “O terreno é da prefeitura com permissão de uso da associação. Porém, a entidade legitimamente não está respondendo pela área porque o mandado se exauriu. Entretanto, a situação não garante a ninguém o direito à invasãoâ€, observa.
Pensa da mesma maneira o ex-vice-presidente da entidade, Donizete Antonio da Silva, para quem a associação tem responsabilidade pelo local até a próxima eleição.
“Não concordamos com a presença deles (os desabrigados) porque tememos pela segurança dos moradores da região. Os comerciantes já vieram nos procurar porque estão preocupados com issoâ€, informa.
Foi justamente a desconfiança dos vizinhos do bairro ao lado que impediram a ocupação do prédio por um número maior de famílias.
“Estão dizendo por aí que somos maus elementos. Já estamos respondendo a processo e se ocupássemos o centro comunitário na calada da noite, o que diriam de nós?â€, questiona a desabrigada Edite Maria da Silva.
Ela está desempregada e tem sobrevivido graças a colaboração de vizinhos que a têm apoiado. “Todos são trabalhadores e continuam batalhando mesmo nessas circunstâncias. Graças a eles, a nossa vida aqui no Jardim Ferraz melhorou muito. Antes, essas casas eram freqüentadas por marginais, que as depredavamâ€, conta Paula de Carvalho Costa, moradora da rua Cyro Wenceslau há quatro anos.
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Nova casa
“Finalmente vou dormir essa noite. Há 15 dias não prego o olhoâ€. O desabafo do desabrigado Waldemar Pereira retrata a preocupação das famílias que enfrentam a angústia de não ter um teto para viver.
Embora saiba que a instalação é provisória, ele comemorava ontem à tarde seu novo endereço. As três famílias transferidas conseguiram organizar seus objetos pessoais a fim de que coubessem num salão de aproximadamente nove metros de comprimento e seis metros de largura. O centro comunitário da Vila Ipiranga ainda dispõe de dois banheiros e uma cozinha.
Enquanto isso, as famílias que restaram na praça Jaime Bichusky continuavam desoladas. “Vamos ficar aqui até que Deus nos ajude, porque se depender da iniciativa do prefeito e dos vereadores, ficaremos para sempre desamparados. Até as cestas básicas que nos foram doadas, sumiram. Não confio em mais ninguém. Adultos e crianças estão se alimentando à base de fubá e macarrãoâ€, desabafa Edite Maria da Silva.
Por essa razão, a vizinha Paula de Carvalho Costa, que está assessorando o grupo juridicamente, recomenda que a comunidade auxilie os moradores diretamente na praça ou no centro comunitário.