Tribuna do Leitor

Motivo de luto


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Pode até beirar o exagero, mas passar pela esquina da Duque com a Rio Branco no último final de semana foi como atravessar um velório. O cenário era de tristeza e ninguém parecia acreditar na frieza do ponto que há mais de dez anos dava um ar metropolitano a Bauru. Sobretudo os universitários. Nas calçadas, todos passavam e olhavam repetidas vezes para trás, tentando entender e ao mesmo tempo não aceitando, como se aquela mãezona substituta, sempre disposta a preparar um lanche quentinho e um café com leite, tivesse falecido, e de repente. É quase inacreditável, mas a padaria Torre de Belém fechou.

O cruzamento da Duque com a Rio Branco representava uma chama-piloto, dava a quem passava a sensação de não se estar tão distante de São Paulo ou de qualquer outro grande centro. Dava, por que não dizer, uma certa segurança e conforto aos que não optaram ou optam apenas pela vida das 8 às 18h. Os que trabalham à noite, os que festejam a lua, aqueles que estudam no período noturno e, como sempre, não tiveram tempo de ir ao mercado durante o dia, invariavelmente davam aquela passada básica pela Torre. No mínimo, um pedaço de pizza de padaria – nada mais paulistano – e um refrigerante enganavam a fome que bate na hora de ir para a cama.

Todas as manhãs, bem cedo, dezenas de viajantes, representantes comerciais que visitam Bauru diariamente, ou mesmo os moradores temporários das repúblicas, todos acordavam com a certeza de que o pão com manteiga na chapa e a média bem quente estavam garantidos. A Torre era o ponto de encontro dos que madrugam e dos muitos que curtem a noite. Ainda mais tarde, o ponto de reencontro depois da noitada.

Um sonho de padaria, um salgado, uma cerveja ou um café. Não importava a preferência. A Torre era vida, era a luz para os notívagos e o consolo para os que perdem o sono e saem em busca de movimento, de gente. Do outro lado, a farmácia amarela, sempre acesa, e até há poucos anos um posto de gasolina na esquina oposta. Era, sem dúvida, um pedaço meio paulistano da cidade, um refúgio para os urbanóides inconformados com a obrigação de se recolher cedo aos seus poleiros. Para os que recorrem à Beneficência Portuguesa ou ao Hospital de Base em horários imprevistos, era onde se podia relaxar, comer e conversar sobre os infortúnios da vida.

Tudo bem que às vezes alguns exageravam na dose nas mesas da calçada, que moradores de rua rodeavam os freqüentadores, que muitos queriam apenas cigarros e bebidas alcoólicas, mas que a Torre era vida, era vida. Por outro lado, amigos ali se encontravam para um café, para conversas sem compromisso, para lanchar ou planejar a noite. Policiais, quardas-noturnos, enfermeiros, viajantes e artesãos trocavam idéias sobre seus trabalhos, contavam piadas e riam da vida. E os universitários? Onde irão promover seus divertidos pedágios nos dias de trote? Os que dormem com as galinhas podem não ter notado, mas perdeu-se um espaço de convivência importante para o crescimento cultural da cidade. Nas madrugadas, a Torre também acolhia pretensos cantores, atores, poetas sem carteirinha e filósofos meio confusos, mas contemporâneos. Foi-se o Oncotô, barzinho de rock que ficava em frente, foi-se o posto que não fechava nunca, foram-se o CaféMania, o Vilão, o Poloni e o Pier. Aos poucos, apaga-se a noite bauruense. Novas casas noturnas foram abertas, mas os ambientes já não são mais os mesmos. A inigualável conversa de botequim, descontraída e bem humorada, está ficando sem espaço no ponto noturno mais agitado da cidade. (Angelo Sottovia Aranha - RG 6.094.790)

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