“Empolgados com resultados altamente positivos de pescarias de piaparas e tucunarés em Rosana-SP, eu e o meu sócio, o dentista Diocélio P. Domingues, resolvemos comprar uma casa naquela cidade, que servisse de base para o nosso esporte favorito, a pesca.
Casinha pequenina, um palmo quadrado de área apenas e ainda com o nosso piloteiro Lino e sua família morando nela, fez com que a mesma se tornasse ainda menor.
Resolvemos ampliá-la com um trailer que estava estacionado no rio Tietê no município de Mirandópolis, mas tínhamos de rebocá-lo por uns 400 quilômetros à noite desviando da Polícia Rodoviária, pois seus documentos estavam desatualizados naquela ocasião.
Para destravar o citado veículo do local em que estava há vários anos foi preciso entrar embaixo do mesmo e quebrar alguns cupins, mas quando ficou livre sobre suas rodas, iniciou movimento sozinho no rumo do rio Tietê, arrastando-me por baixo por vários metros e causando susto tão grande que até me esqueci de reapertar as rodas que eu mesmo havia acabado de colocar.
Já era tarde quando iniciamos aquela viagem que ocorreu normalmente até à região do Pontal do Paranapanema, mas quando atravessávamos a Serra do Diabo, que é uma reserva ecológica onde a Cesp soltava e monitorava quase uma centena de onças pintadas, pardas e pretas, além de outros bichos, a bendita roda do trailer soltou-se e ainda passou rodando na nossa frente como que zombando de nós. Assustado eu gritei:
- Olha uma roda passando, deve ser daquele carro velho que ultrapassamos.
- Acho que não, respondeu o Diocélio. Eu não vi você reapertar as rodas então deve ser uma das rodas do meu trailer. Você é um desastrado, um irresponsável! Nem terminou a frase, o nosso veículo espacial aterrissou e fez um enorme barulho lá trás e tivemos de parar bem no meio daquela reserva.
Alheios ao perigo pois não sabíamos das onças, naquelas horas da madrugada eu saí para um lado com um farolete para procurar a roda que soltara e o Diocélio foi para outro lado à procura dos parafusos que caíram. Notei que os carros que eu encontrava piscavam os faróis e buzinavam.
- Devem ser as pessoas daqui dando as boas-vindas.
Voltei ao ponto em que o trailer estava e encontrei o Diocélio com alguns parafusos, quando fez um comentário sobre os carros que passavam:
- Estão achando que eu sou o Big Brother, pois todos buzinam e piscam para mim!
Provisoriamente consertada a roda que caiu, resolvemos lanchar as sobras do nosso almoço anterior pois não tivemos tempo para o jantar e sentamos sossegados embaixo de umas bananeiras cujos frutos já bem maduros estavam bem no alto e fora do nosso alcance. Os carros passando na estrada buzinando e piscando seus faróis.
Mas quem nunca ouviu uma onça adulta pensa que ela mia que nem gato e não sabe que o seu esturro se assemelha mais ao ronco de um velho trator, por isso perguntei ao Diocélio:
- Quem será que a estas horas da madrugada está arando terras com um trator?
- Sei não. Não deve ser pescador, respondeu.
Fiquei preocupado com o silêncio repentino naquele lugar e até me lembrei do meu pai que me disse um dia que quando a onça esturra, a mata silencia. Realmente, os lobos que uivavam, as aves noturnas que cantavam e até os sapos que antes faziam grande algazarra, de repente silenciaram. Os carros ainda passavam buzinando e piscando seus faróis.
Outro ronco daqueles, agora bem mais perto e até uma banana madura caiu do cacho bem em cima do Diocélio, que ainda ofereceu:
- Quer uma banana?
- Não obrigado, pode ficar com ela, respondi.
Os carros passavam, buzinavam e piscavam seus faróis e isto causou outro comentário do Diocélio:
- Acho que as pessoas estão com os olhos crescendo pra cima do meu trailer!
Outro ronco e desta vez tão perto que várias bananas maduras caíram bem no meio de nós e eu exclamei contente:
- Bananas para todos!
Mas o amigo respondeu bravo:
- Nossa, Eurico, você está com um mau hálito danado, parece bafo de onça, precisa tratar dos seus dentes!
- Eu não tenho mau hálito, respondi, muito menos bafo de onça ou então tem outra pessoa fedendo aqui no escuro... e tem mesmo. Corra Diocélio!
Corremos sem olhar para trás perdendo marmitas, faroletes e ainda trombamos os dois na mesma porta:
- Abra essa porta, velho travado, gritei eu.
- Abra você, seu desastrado, responde ele. As chaves estão com você, seu irresponsável!
Realmente as chaves estavam no meu bolso e saímos como que voando dali e chegamos em Rosana quando ainda estava escuro. Tirávamos o primeiro cochilo daquela noite movimentada quando ouvimos um grito do lado de fora. O trailer até balançou várias vezes e nós acordamos assustados procurando lembrar onde nós estávamos:
- Onde estamos?
- Estamos bem na divisa do Mato Grosso, deve ser uma onça, concluímos.
Não, não era uma onça. Era a dona Nadir, esposa do nosso amigo tenente Rubens daquela cidade a nos avisar que o sol estava bem alto e ainda batia e insistia pelo lado de fora:
- Pescadores... acordem meninos!†(Eurico de Oliveira é pescador e contador de histórias)