A Organização das Nações Unidas (ONU) pode estar com seus dias contados e o Brasil, na opinião do geógrafo André Roberto Martin, professor de Geografia Regional e Política da Universidade de São Paulo (USP), é um dos candidatos a construir uma nova organização mundial.
“O que pode acontecer é o Brasil contribuir para o desenho de uma nova ONU, algo que venha suceder a ONUâ€, diz.
Outra suposição do professor, que concedeu entrevista ao Jornal da Cidade, é de que o Brasil venha a integrar a organização através do que ele chama de meio-veto, ou veto associado.
“A minha proposta é o Brasil e a Índia repartirem o poder de vetoâ€, expõe Martin.
Se os Estados Unidos romperem a ordem mundial, entretanto, atacando o Iraque sem o apoio da comunidade internacional, a organização pode deixar de existir, segundo o geógrafo.
Na opinião de Martin, a crença de que os Estados Unidos são a única potência mundial não passa de ilusão.
“Não é porque a Rússia perdeu ideologicamente e se fragmentou que ela deixou de ter capacidade de destruir o mundo todo, incluindo os Estados Unidosâ€, destaca.
“A crise que estamos atravessando é fruto basicamente da ilusão de grandeza que tomou conta dos Estados Unidos com o Bush paiâ€, acrescenta Martin. Confira a seguir trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Como o senhor avalia esse racha entre os membros do Conselho de Segurança da ONU e entre os países-membros da organização? André Roberto Martin - Eu avalio como de muita gravidade. Não temos na história recente uma situação em que dois grupos de alianças tão poderosas tenham se colocado um lado contra o outro. Deu-se uma divisão entre o poder marítimo - Estados Unidos, Inglaterra e Japão, embora o Japão não seja do conselho - e do outro lado França, Alemanha, Rússia e China, que são potências terrestres. Classicamente, na teoria geopolítica, quando você tem um racha entre poder marítimo e poder terrestre, é risco de guerra mundial. O precedente histórico todo, olhando para trás, é altamente preocupante. Os Estados Unidos estão dando um ultimato duplo - um para o Iraque e um para a ONU. O paradoxo é que a ONU é uma proposta americana. E, hoje, são os Estados Unidos que querem acabar com a ONU. Isso me leva a concluir que o problema que estamos vivendo é o de vésperas de uma guerra mundial.
JC - Então a ordem mundial corre sérios riscos? Martin - Corre riscos. O grande desafio, desde que surgiu a possibilidade da guerra termonuclear, era exatamente como transitar para uma ordem mundial mais justa sem o recurso da guerra. Todas as outras vezes em que houve mudança da ordem mundial foi através de guerra. Uma ordem mundial é apoiada por um certo equilíbrio de poder. A noção principal que está sendo derrubada pela ação americana é a noção de equilíbrio de poder. Com a presença da bomba atômica, o recurso à guerra não é o modo adequado de se mudar a ordem mundial. Os Estados Unidos estão sendo reacionários. Eles estão querendo reagir a uma tendência histórica. Com o declínio da bipolaridade, a tendência natural seria a multipolaridade. E os Estados Unidos estão querendo reverter a bipolaridade em monopolaridade.
JC - O que representaria uma ação militar norte-americana mediante o veto de um ou mais membros do Conselho de Segurança? Martin - O fim da ordem mundial e a abertura de um período de guerras intermináveis. O resultado final disso é a recomposição do equilíbrio de poder. Os Estados Unidos estão usando o petróleo e o Iraque como pretexto para se impor como única potência mundial. O petróleo, na minha opinião, está subordinado ao projeto de supremacia incontestável que eles querem ter sobre o mundo. Eles querem fazer isso através de meios militares, provando que nenhuma força militar é capaz de se opor ao exército dos Estados Unidos. Só que isto, na verdade, é fruto da ilusão de que só os Estados Unidos tinham sobrado como superpotência. Isto é um erro conceitual, teórico e político gravíssimo. Porque, de repente, as pessoas fizeram de conta que o arsenal nuclear russo desapareceu. O que não é verdade. O conceito de superpotência é um conceito militar. Ele está ligado à capacidade de destruição do planeta, que a Rússia continua tendo. Não é porque a Rússia perdeu ideologicamente e se fragmentou que ela deixou de ter capacidade de destruir o mundo todo, incluindo os Estados Unidos. A crise que estamos atravessando é fruto basicamente da ilusão de grandeza que tomou conta dos Estados Unidos com o Bush pai. Agora a coisa ficou insustentável porque eles acreditaram nisso e querem provar que são realmente a única potência.
JC - Porque, portanto, os Estados Unidos, apoiados pela Inglaterra, se esforçam para obter a aprovação da ONU? Martin - Todos os países que têm veto não querem usar o veto. A China, a Rússia e a França não vetam logo porque sabem que o jogo da diplomacia americana é precisamente esse. Ela diz que vai invadir o Iraque de qualquer jeito - com o apoio da comunidade internacional ou contra ela. Isso é uma postura que não dá chance à paz. O que eu acho novo e gravíssimo é a disposição americana de atropelar definitivamente a ONU. Na verdade, os Estados Unidos desejam o veto e eles ficam irritados quando a França consegue procrastinar a decisão. Ao mesmo tempo, é óbvio que França, China e Rússia não querem usar o veto. Isso que seria a ruptura. Se um país do Conselho de Segurança desrespeitar o veto, é o fim da ONU, o fim da ordem mundial e o começo da Terceira Guerra.
JC - A ONU perderia credibilidade e respaldo ou seria realmente o fim? Martin - Se atacarem sem o aval da ONU é o fim da ONU. Não tem dúvida. É claro que a ONU não tem poder para forçar os países a cumprir as resoluções. Ela depende do poder das potências que têm assento no Conselho de Segurança. Se uma dessas potências age de modo revolucionário, sem respeitar as regras que ela própria estabeleceu, é o fim da ONU. O veto foi distribuído às cinco potências. Está claramente provado que as cinco potências são insuficientes hoje para controlar as relações internacionais. Uma das crises é essa crise em que ficou pequeno o Conselho de Segurança. Precisaria aumentar o número de membros do Conselho de Segurança. Mas não existe esse precedente, a não ser pela guerra. Por isso aquela ilusão brasileira de chegar ao Conselho de Segurança por convite é uma quimera. Isso não vai acontecer. O que pode acontecer é a gente ter habilidade, se a guerra tiver muita reação por parte da comunidade internacional, e o Brasil contribuir para o desenho de uma nova ONU, algo que venha suceder a ONU.
JC - O senhor imagina de que forma o Brasil poderia contribuir para uma nova ONU? Martin - Eu imagino. Eu imagino através do que eu tenho chamado de meio-veto. Ou seja, um veto associado. A minha proposta é o Brasil e a Índia repartirem o poder de veto. Ou seja, só haveria um veto desses países no Conselho de Segurança da ONU se os dois estivessem de acordo. Eu sugiro que Japão e Alemanha juntos tenham um veto e o Brasil e a Índia juntos tenham outro veto. Essa idéia pode solucionar o problema. O Celso Lafer estava numa negociação em que Brasil, Índia, Japão e Alemanha tinham recebido o apoio dos Estados Unidos para virem a ingressar o Conselho de Segurança futuramente. Mas tudo isso ficou congelado desde o Bush. Nunca se chegou a uma fórmula que atendesse a todos os interesses. Os Estados Unidos não querem alargar o número de membros do Conselho de Segurança. Eles alegam que o direito de veto é uma coisa que foi conquistada de maneira muito sacrificada e não pode ser dada de mão beijada.
JC - Mas o senhor acredita que o Brasil está próximo de chegar à ONU? Martin - Sim e não. Sim do ponto de vista das possibilidades históricas, do passado pacifista que o Brasil tem, de um certo prestígio moral, cultural, político. Acho que o Lula, desse ponto de vista, vem a calhar. Por outro lado, estamos muito fragilizados econômica e militarmente. Ninguém chega ao Conselho de Segurança da ONU sem força econômica nem militar.
JC - Ainda não há uma estratégia definida para se chegar a isso? Martin - Não temos uma estratégia definida. O Fernando Henrique acreditava na renúncia à proliferação de armas de destruição em massa como meio de agradar o Conselho de Segurança. O que nós estamos assistindo é uma coisa contraditória. O comportamento dos Estados Unidos excessivamente brando perante a Coréia do Norte, que afirma ter bombas nucleares; e o comportamento excessivamente duro diante do Iraque, que deixa a ONU investigar se ela tem ou não armas de destruição em massa - e não se prova que tenha. Essa desproporção de posição diplomática americana acaba sinalizando que os Estados Unidos só respeitam quem tem bomba atômica. A postura americana é idiota. O negócio não é não ter bomba atômica. É exatamente o contrário.
JC - Na sua opinião, está afastada a possibilidade de um acordo sem guerra e de que a ONU venha a ser uma fonte alternativa de poder no mundo? Martin - A chance é mínima disso acontecer. Temos uma última esperança nas movimentações deste fim de semana.