O governo Lula está parcialmente influenciado por dois fatores externos (iminência da invasão do Iraque por tropas americanas e britânicas e eleição presidencial na Argentina) sobre os quais pouco pode fazer e um interno (a pressão inflacionária), que aparentemente está sob controle.
Não é fácil governar e o presidente Lula parece ter-se dado conta disso, passados apenas quase três meses de comando da Nação. O consolo para nós, governados, é que, felizmente, não lhe tem faltado bom senso nas decisões tomadas até agora e, talvez por isso, a lua-de-mel com a opinião pública perdure.
Esses três fatores poderão combinar-se de várias formas no curto prazo (de março a junho). Mas, independentemente das combinações possíveis, o cenário externo é que deverá condicionar fortemente as ações futuras do governo.
Embora tenha se manifestado contra a invasão do Iraque, a diplomacia brasileira sabe que ela é apenas uma questão de tempo. O que se discute hoje nos círculos da política externa é, se ocorrer, qual será a duração da guerra. Ela tanto pode acabar em semanas como em meses ou anos. E este é o problema principal, além daqueles que poderão recrudescer no campo do terrorismo nefasto.
Se durar pouco tempo, ela terá pequeno impacto no fluxo dos investimentos diretos americanos destinados aos países emergentes, dentre os quais o Brasil. Caso contrário, o impacto negativo será diretamente proporcional à duração das atividades bélicas.
Daí decorre a importância crescente dos pacifistas, que, cada vez em maior número, mesmo nos Estados Unidos e na Inglaterra, se opõem à invasão do Iraque.
A segunda preocupação do Itamaraty é o resultado da eleição presidencial na vizinha Argentina. Após o fracasso da insana política de paridade cambial entre peso e dólar, dependendo de quem os eleitores de lá venham a eleger, nossa principal parceira de Mercosul poderá aderir unilateralmente à Alca.
As chances de tal atitude vir a ser tomada são pequenas, mas não podem ser negligenciadas. Veja-se, a propósito, as recentes mudanças de posição do Chile e do Uruguai em relação ao cronograma da Alca.
Se tal atitude viesse a ser tomada, o Brasil seria duplamente prejudicado porque teria de negociar a adesão à Alca sem os parceiros do Mercosul. E sem eles seria igualmente difícil o diálogo com a Comunidade Andina e, principalmente, com a Comunidade Européia, agora definitivamente dividida entre as nações que apóiam Bush, na ação contra o Iraque, e as que se opõem, lideradas pela França e Alemanha.
Como o leitor pode deduzir, há motivos de sobra para o presidente Lula e seus colaboradores perderem o sono.
Em relação à guerra contra o Iraque e às eleições presidenciais argentinas, o Itamaraty pouco pode fazer, além de torcer para que as ações bélicas ou não ocorram ou durem o menor tempo possível, e que o sucessor de Eduardo Duhalde se mantenha fiel aos princípios do Mercosul.
Enquanto espera e torce pelo melhor, o presidente Lula aposta todas as suas fichas no controle da inflação e na política de geração de enormes superávits na balança comercial, os quais, felizmente, estão ocorrendo. Além disso, o debate e a rápida aprovação pelo Congresso das reformas da Previdência e tributária, principalmente, ainda neste ano, representariam para o governo uma espécie de seguro contra o agravamento das questões externas.
Com a aprovação dessas duas reformas e, eventualmente, com a atualização da legislação trabalhista, o governo poderia criar um espaço para o crescimento do mercado interno, via a drástica diminuição dos gastos públicos e a conseqüente elevação da poupança doméstica. Aqui reside o foco essencial, com forte ação e influência do governo e que a sociedade espera que se atue, sem vacilar. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil )