O prefeito de São Carlos, Newton Lima (PT), se licenciou de suas atividades acadêmicas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), na qual é professor PhD em engenharia de produção (título de especialização obtido no Exterior), para se dedicar ao mundo político, seara em que ingressou ainda na militância estudantil.
Ex-reitor, Neto teve sua primeira experiência em disputa eleitoral quando aceitou ser candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Marta Suplicy, nas eleições de 1998. O tucano Mário Covas seguiu para o segundo turno por uma diferença mínima de votos em relação à dupla petista.
De lá para cá, decidiu assumir seu gosto pela política partidária. Disputou a eleição municipal de 2000 e foi eleito prefeito de São Carlos. No ano passado, colaborou no programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva nas áreas de educação e ciência e tecnologia.
Foi cotado para assumir o Ministério da Educação e cedeu dois secretários municipais - Francelino Grando e Balizeu Alves Margarido Neto - para o governo federal.
Na sexta-feira, Newton foi eleito para presidir o Comitê da Bacia Hidrográfica do Tietê-Jacaré, que agrega 34 municípios da região. Em visita ao Jornal da Cidade, ele concedeu a entrevista que segue:
Jornal da Cidade - O senhor acaba de ser eleito presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica Tietê-Jacaré. Quais são seus planos para salvar a bacia do fantasma da poluição?
Newton Lima - O meu compromisso é ajudar os nossos municípios da bacia, ao todo são 34, a encontrar os recursos necessários para garantir a harmonia, o desenvolvimento sustentável. O crescimento das nossas atividades econômicas sem ferirmos o nosso ambiente. Mais do que isso: recuperando aquilo que já foi feito no passado. Precisamos ampliar os recursos do Fehidro junto à Agência Nacional de Águas (ANA). É importante estarmos politicamente agindo para que a ANA dê respostas mais contundentes às demandas que os municípios têm, sobretudo no tratamento dos efluentes. Isso para nós é absolutamente central. Evidentemente da expansão da água potável, dos problemas de saneamento, de coleta das cidades que tiverem os menores indicadores. Aproveitar o crédito de R$ 1,4 bilhão da Caixa Econômica Federal para habitação e saneamento. Precisamos que a lei do pagamento da água seja aprovada na Assembléia Legislativa. Os prefeitos querem isso. Sabem que se a água não for cobrada não terá retorno para se fazer caixa e cuidar dos efluentes.
JC - O senhor é professor licenciado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da qual já foi reitor. A política é mais atraente do que o mundo acadêmico?
Lima - Estou no PT desde 1982. Praticamente ajudei a fundar o partido, embora nunca me dedicasse à militância partidária. A primeira vez que eu entrei na militância partidária foi quando a Marta (Marta Suplicy) me convidou para ser candidato a vice-governador na eleição de 1998. Estou na política por ideal. A vontade de mudar a sociedade, de ajudar o Partido dos Trabalhadores a implantar uma nova forma de governar. Há coisas que me encantam muito, como a absoluta moralidade pública, a participação da sociedade e a preocupação com o social. São três pontos que sempre marcaram ideologicamente. Na oportunidade em que apareceu o convite da Marta, me pareceu algo inusitado, inesperado. Quase ganhamos o Governo do Estado. Eu tenho gosto pela política desde o movimento estudantil. Fiz a Escola Politécnica da USP, em São Paulo, durante o regime militar, e minha formação política é de esquerda. Lutei pela democracia, pela anistia. O convite da Marta me fez perceber que de fato é bastante entusiasmante participar da política partidária.
JC - E como está sendo a experiência de governar o Município de São Carlos? Já se passaram dois anos desde a posse. Qual é a avaliação que o senhor faz?
Lima - Acho que fomos jogados numa piscina sem sabermos nadar. E aprendemos a nadar na prática. Nosso governo, a começar de mim, não tinha experiência administrativa de cidades. Tínhamos muita experiência administrativa pública. Mas na nossa função de direção universitária. Aprendemos muito a planejar, a administrar escassez, a tirar leite de pedra, a trabalhar com a população, mesmo que no caso a acadêmica, mas com interesses diversificados. A experiência de administração pública, em primeiro lugar, é fascinante. Porque você muda as vidas das pessoas, muda a cara da cidade. Pegamos uma situação conjuntural, do ponto de vista político, econômico, moral, ambiental, em absoluto processo de destruição. São Carlos é uma cidade de porte médio mais falida do Estado. Tem uma dívida de 120% de seu orçamento anual. Temos um orçamento de R$ 125 milhões e a dívida ultrapassa os R$ 150 milhões e continua aumentando. Temos vários precatórios que estão sendo julgados pela Justiça. Renegociamos boas parcelas com o INSS, FGTS dos servidores, com os dois principais credores/ fornecedores, que são o lixo e a companhia de energia elétrica. No orçamento deste ano, vamos perder R$ 10,5 milhões e vamos perder R$ 10,5 milhões corrigidos, anualmente, durante 25, 30 anos.
JC - Com esse quadro crítico, qual é a expectativa que o senhor tem do futuro do município?
Lima - A nossa experiência é dupla. Temos que trabalhar com competência e eficiência com o pouco de dinheiro que temos. E buscar dinheiro fora. E isso nós já conseguimos. quando eu fui reitor, trouxemos muito dinheiro para a Universidade de São Carlos. Nenhum prefeito conseguiu trazer para São Carlos tanto dinheiro quanto eu trouxe como reitor. Nosso time é um time de professores da universidade com experiência administrativa. É um governo muito diferente. Acho que é o primeiro governo do Brasil que tem PhD do prefeito até o segundo escalão. Conseguimos R$ 25 milhões de verbas em dois anos. O que nós perdemos em dívidas em dois anos, recuperamos através de recursos do Estado, da União e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
JC - O senhor tem 21 meses de governo pela frente. Quais são as prioridades?
Lima - Em primeiro lugar, nós governamos com a população. A população decide as prioridades. Nas reuniões do orçamento participativo estabelecemos com ela as prioridades. São Carlos tem hoje alguns investimentos muito importantes. Conseguimos trazer o segundo câmpus da USP. Ela está numa região que é o segundo pólo aeronáutico do Brasil. Estamos preparando a cidade para a nova diretriz viária de ocupação do solo baseado no desenvolvimento econômico do município. Estamos planejando a cidade para 20 anos em três aspectos: social, desenvolvimento econômico e fomento urbano. Precisamos, nos próximos dois anos, consolidar o que nós plantamos. Precisamos fazer a estação de tratamento de esgoto, inaugurar cinco novos postos de saúde e cinco novas unidades de educação. Temos que consolidar a malha viária. É um problema. Estamos procurando recursos no BNDES para fazermos as marginais da cidade. Iluminação pública: São Carlos será a primeira cidade da região com 100% de luzes modernas. São lâmpadas de sódio que vão significar 45% de redução de custos. O norte, agora, é consolidar essas linhas de programas sociais e de infra-estrutura urbana. Vamos construir quatro terminais de transbordo de passageiros para implantar a bilhetagem automática.
JC - O senhor tem como projeto político disputar a reeleição nas eleições municipais do ano que vem?
Lima - É muito cedo. Não é possível dar uma resposta sem uma discussão partidária local, estadual e nacional. De alguma maneira, precisamos ver a possibilidade de continuar o projeto. Não podemos voltar ao passado, não podemos voltar à imoralidade pública. Temos responsabilidade de dar continuidade ao projeto político de moralização, de saneamento financeiro e ambiental. De repente pode surgir a necessidade de contribuir com o governo federal. E a cidade sabe disso. A cidade esperava que eu não fosse ser convidado a ser ministro. Eu garanti que não seria ministro, porque já bastava o Palocci (Antonio Palocci, ministro da Fazenda) ser arrancado da Prefeitura de Ribeirão Preto para ir a Brasília. Para nós, é fundamental a conclusão deste mandato. É uma discussão que não depende da minha vontade. Ser prefeito é um privilégio extraordinário, apesar de nós vivermos numa cidade que é uma máfia política. Ela é muito poderosa e quer voltar, até para estancar os processos criminais em andamento.
JC - Qual é a avaliação que o senhor faz dos dois primeiros meses do governo Lula?
Lima - Para quem passou como nós a experiência de início de mandato, tudo o que está acontecendo é absolutamente normal. Sabemos que é muito difícil lidar com uma máquina que você não conhece, com um orçamento que não é seu e implantar o teu programa de governo num prazo tão curto. Isso é impossível. É preciso dominar a máquina, montar toda a estrutura, preparar o primeiro ano, o terreno, para que no segundo, terceiro e quarto anos você possa implantar o teu programa de governo, que significa mudar o orçamento. O primeiro orçamento do Lula será o do próximo ano, que já começa a ser elaborado e chegará ao Congresso Nacional em setembro. Esse será a cara do governo Lula. E a partir do próximo ano, o Lula terá uma equipe que terá absoluto conhecimento da máquina como um todo. Eu acho que o Lula, do ponto de vista externo, deu um show. Isso é política que não depende de dinheiro, de infra-estrutura e nem de máquina. Depende de verbo. A parte política de construção das alianças acho que é um sucesso muito grande. Economicamente também julgo que o Palocci está dando um show de bola. Se o governo não adotasse as medidas que foram adotadas, teríamos uma situação de caos nacional e internacional de desestabilização. Primeiro temos que buscar a estabilidade. E a estabilidade nesse momento precisou de um remédio amargo, de medidas ortodoxas, monetaristas, é verdade, mas elas são transitórias. Porque se for para ficar desse jeito, não vale a pena governar. É melhor entregar para o Malan (Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda), para o Fernando Henrique (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso). A passagem não pode ser truculenta. O Lula já tinha avisado que não faria mudança com ruptura.
JC - A grande massa de eleitores que votou em Lula provavelmente acreditava em mudanças a curto prazo, mas que só devem ocorrer a médio e longo prazos. O senhor acha que a população consegue enxergar que as mudanças não vão ocorrer já?
Lima - Não percebe. Haverá um desgaste natural. Não há mandatário novo, seja governador, prefeito ou presidente que não enfrente uma curva de popularidade descendente. Você sai de um ponto alto de avaliação, que é a eleição que você ganhou. Depois, você vai caindo, caindo por alguns meses. Quando se começa a mostrar algum serviço, a curva começa a levantar. E se tiver competência, sorte e fatores conjunturais adequados pode voltar a superar o ponto de partida ao final do quarto ano. Aconteceu em Santo André, que é um exemplo concreto, Porto Alegre, prefeituras nossas. A população não vê porque a primeira expectativa que foi criada é muito grande. E a população não consegue compreender essas coisas que falamos porque não tem emprego, continua tendo inflação, o custo de vida continua alto. A resposta só vai acontecer ao longo do tempo.
JC - O senhor colaborou no projeto do governo Lula nas áreas de educação e ciência e tecnologia. O que se pode esperar da administração petista nesses setores?
Lima - Eu tenho conversado com os ministros Roberto Amaral e o Cristovão Buarque sobre os problemas do governo. Acho que são duas áreas sensíveis, que precisam de dinheiro para se desenvolver. Do ponto de vista da ciência e tecnologia, o fato de termos recuperado ou ampliado o número de bolsas é algo positivo. É preciso, agora, aumentar o valor da bolsa de mestrado e doutorado. É preciso implantar toda uma nova política de ciência e tecnologia voltada ao desenvolvimento, ao apoio, trabalhando com o Ministério do Desenvolvimento, na perspectiva de agregar valor aos nossos produtos, ampliar a exportação, porque é isso que vai tirar a gente do buraco. Os primeiros passos são difíceis nessa área. Mas minha confiança é de que a ciência e tecnologia é uma área que dará muita satisfação a nós, brasileiros. Na educação, Cristovão Buarque começou simbolicamente mudando o valor da merenda escolar, de R$ 0, 06 para R$ 0,13, o que ainda está longe da realidade, para nós prefeitos. Mas já é uma mudança extraordinária. Ele reiterou a importância de trabalhar para termos no Brasil, até o fim do governo Lula, a meta de colocar na escola toda criança que completar quatro anos de idade.