Washington - O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, começaram ontem a preparar a opinião pública de seus países para uma guerra no Iraque mais longa do que o esperado. Após oito horas de conversações em Camp David, a casa de campo da Presidência dos EUA, os dois líderes não negaram, em entrevista coletiva, os comentários de fontes militares de que o conflito pode durar meses.
A reunião ocorreu depois de as tropas da coalizão anglo-americana terem encontrado resistência maior do que a esperada no Sul do Iraque e dos atrasos provocados pelo mau tempo no país. Questionado sobre o prazo para a duração do conflito, Bush demostrou irritação e disse: “Vai demorar o quanto demorar. Não é uma questão de prazo. É uma questão de vitóriaâ€, disse ele. “O importante é que o trabalho será completadoâ€, emendou Blair. “Não há razão para determinarmos um limite (para o fim da guerra) devido à natureza do que temos pela frente.â€
Os dois líderes adiaram uma definição sobre qual será o papel da ONU no Iraque depois que Saddam Hussein for derrubado. Embora Blair tenha dito que não há dúvidas de que a ONU deve participar, ele afirmou que havia concordado com Bush: “Ainda há um grande número de detalhes que devem ser discutidos com nossos aliados para decidirmos como (a participação da ONU) vai funcionarâ€.
Bush demonstrou impaciência também quando confrontado com a falta de apoio de países ocidentais na coalizão para a guerra. “Nós temos vários aliados ocidentais. Eu posso te dar uma lista.†Na seqüência, Blair reconheceu que há países na Europa que são contra.
Durante a entrevista, Bush se antecipou algumas vezes em responder às perguntas, ao ponto de Blair, em um determinado momento, dizer “can I?†(posso?) para tentar dar uma resposta.
Os pontos de consenso do encontro foram a certeza da vitória e a formulação de um pedido à ONU para que seja restabelecido o programa que prevê a troca de petróleo por alimentos para o Iraque - suspenso com a guerra. Os Estados Unidos vêm se manifestando publicamente contra uma participação maior da ONU no pós-guerra.
Anteontem, tanto o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, quanto o porta-voz de Bush, Ari Fleischer, disseram que a ONU deve ter um papel no Iraque, mas que os americanos deveriam ter um “significativo e dominante†controle do país antes disso.
O argumento é que a ONU não teria capacidade militar para sedimentar a transição no país, que os EUA querem deixar a cargo do general reformado Jay Garner.
No encontro, Blair e Bush trocaram afagos. O presidente americano elogiou a “palavra, a visão e a coragem†do britânico, ao que Blair retribuiu afirmando que a aliança entre os dois países nunca “esteve melhor e mais forteâ€.
A reunião em Camp David foi realizada quase 60 anos depois de o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt (1933-1945) ter encontrado no mesmo local o premiê britânico Winston Churchill (1874-1965) durante uma das piores fases da Segunda Guerra Mundial - que os dois aliados acabaram vencendo.