Polícia

Rapaz é morto em assalto na Pousada 2

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Um roubo seguido de morte ocorrido ontem na Pousada da Esperança 2, em Bauru, evidenciou a falta de segurança vivida por moradores e comerciantes do bairro. Um rapaz acabou sendo morto ao assaltar uma padaria. O dono do estabelecimento teria reagido e disparado contra um dos dois invasores, matando-o.

Em seguida, o comerciante fugiu e sua família agora teme sofrer represálias por parte dos ladrões. O medo toma conta dos moradores e comerciantes do bairro, que se negaram a dar informações à reportagem. “Quando o Estado falha, os bandidos tomam conta”, disse uma mulher, sem identificar-se.

A esposa do comerciante acusado de matar o assaltante concordou em dar entrevista, mas pediu para não ser identificada. “Eles entraram para assaltar o meu marido às 6h30 da manhã. Tentaram matá-lo, mas ele conseguiu se defender e matou um dos ladrões”, resumiu.

Mas o drama da família, na opinião dela, começou depois da morte do rapaz. “Não vamos ter sossego. A polícia não vai dar segurança para nós. Minha família está marcada porque os marginais vão se revoltar. Não sei o que fazer”, diz, preocupada.

Ela acha que apesar de ter se safado da morte, seu marido será penalizado. “Temos que arcar com as despesas de um advogado. Lutamos muito para ter esse negócio e agora estamos vulneráveis, impotentes”, afirma.

Ela conta que há quatro anos mora na Pousada 2. “Começamos do nada. Eu trabalhava como doméstica e meu marido como padeiro. Nós batalhamos muito para conseguir montar esse negócio. Já fomos assaltados três vezes, duas delas com armas de fogo e uma com faca”, relata.

Ela acha que o marido agiu em legítima defesa. “Era ele ou o ladrão. Ele passou a mão na arma e atirou. Vai responder processo. Isso é quase um castigo para quem batalha como nós”, opina. A comerciante acha que falta policiamento no bairro. “Raramente vemos a viatura passar. Hoje, depois do homicídio, não conseguia falar no 190”, diz.

Um posto policial no bairro poderia ajudar a melhorar a segurança, acredita ela. A mulher acha que os ladrões conheciam os procedimentos de segurança da padaria. “Fazemos filmagem, mas ontem estava desligado. Eu ligo a câmera quando eu chego e meu marido estava sozinho na padaria”, afirma.

Crime

O roubo seguido de morte ocorreu na quadra 1 da rua José Roberto de Toledo Cassiano, por volta das 6h30 de ontem. Dois rapazes encapuzados, segundo testemunhas, entraram na padaria armados com um revólver Rossi calibre 38 e com uma espingarda calibre 12 de fabricação caseira.

Enquanto um deles rendeu o comerciante, Paulo Dias Morais, 33 anos, o outro se dirigiu ao caixa e arrecadou R$ 167,79 em dinheiro, cinco pacotes de cigarros mais 45 maços e um relógio de pulso. Diante da situação, o comerciante reagiu.

A vítima lutou com o ladrão que estava com o revólver e conseguiu pegar a arma, momento em que Edevanio Vitoriano da Costa, 22 anos, o rapaz que morreu, teria tentando matá-lo com um tiro de espingarda. O disparo picou e não saiu da arma.

O primeiro encapuzado ficou desarmado e fugiu. Costa foi atingido por dois tiros que teriam sido disparados pelo comerciante. Um deles atingiu as costas e o outro, as nádegas do rapaz. Os ferimentos provocaram sua morte.

O revólver, apreendido pela polícia, tinha numeração raspada, o que evidencia a origem clandestina. A espingarda, igualmente apreendida, era de fabricação caseira e tinha uma cápsula picotada e não deflagrada.

Ao lado do corpo do rapaz, a polícia encontrou o dinheiro, os cigarros e a espingarda dele. De acordo com o titular do 2.º Distrito Policial de Bauru, Antônio Carlos Piccino Filho, Costa não tinha endereço fixo e estava temporariamente na Pousada.

A polícia continua a investigação para identificar o segundo participante do crime e, através dele, comparar as versões das testemunhas. “O comerciante, por orientação de seu advogado, se ausentou do local. Sua família prometeu apresentá-lo na delegacia”, diz Piccino.

Costa, mais conhecido por “Marinho”, era procurado pela Justiça por ter praticado um furto contra um comerciante do Jardim TV em fevereiro de 2001.

Assaltada

Uma comerciante da Pousada da Esperança 2, preocupada com a segurança, contou, sem identificar-se, que foi assaltada três vezes. “Na última vez, na quinta-feira, os ladrões levaram R$ 100,00 e a fita com as cenas gravadas”, conta.

Ela reclama do trauma que os assaltos causam. “Na hora eu procuro manter a calma e nunca reagir. Mas depois fico assustada por muitos dias. Qualquer pessoa me apavora. Meu coração dispara com pessoas semelhantes aos assaltantes. Me sinto impotente diante da situação”, frisa.

Ela lembra que na última quinta-feira dois jovens entraram em seu estabelecimento por volta das 15h. “Um deles estava com um revólver. Eu entreguei o dinheiro e a fita. Ele mandou eu não olhar para eles e eu obedeci porque fiquei com muito medo”, conta.

A comerciante relata que mais três estabelecimentos foram assaltados nas últimas semanas. “A polícia prende e a lei solta. Não tem jeito. Estamos vivendo uma situação limite”, confessa. Ela acha que a cada dia os ladrões estão mais audaciosos. “Eles já assaltaram na frente de funcionários. Eles não têm medo, nós é que temos”, desabafou.

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Sete assaltos em um mês

O número de assaltos na região da Pousada da Esperança neste mês, até ontem não é assustador, apesar de ser preocupante, segundo o comandante da Base Comunitária Leste, tenente Alessandro Rosseto da Silva. “Foram registrados sete assaltos neste mês. Há suspeita de que a dupla que vinha agindo no bairro seja essa que acabou com um morto”, afirma.

De acordo com ele, a região - Pousada 1 e 2, Vila São Paulo, Núcleo Nova Bauru e Núcleo Gasparini - é patrulhada por uma viatura. “É evidente que faltam homens e viaturas. Vamos ter que solicitar o apoio do Tático e da Cavalaria”, admite o tenente.

Na opinião dele, a prisão ou a morte de um marginal influencia no índice de criminalidade do bairro. “Nessa mesma região foram registrados nove assaltos a posto de combustível no mês de fevereiro. Depois da prisão de um marginal, o número caiu para um neste mês”, diz.

O tenente Rosseto acha que os autores de vários roubos ocorridos nos últimos dias no bairro são os rapazes que assaltaram. “A pessoa assalta e não vai presa. Ela volta à prática delituosa até ser presa ou morta.”

O comandante da Base Leste prometeu procurar a família do comerciante para tentar oferecer segurança. “Não temos condições de deixar um policial só lá, mas podemos estudar um jeito de protegê-los”, diz.

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