Era um ídolo como Foyt. Lembra-me de ler suas vitórias ainda criança, e depois o acidente quase fatal na curva da ferradura com uma Alfa P33. Nessa época, Toninho contou-me minuciosamente o acidente, e disse-me que se afastou das corridas por paura. Mas o amor às pistas, à adrenalina ou seja lá o que for, o fez voltar para continuar a carreira de sucessos.
Foyt teve um acidente em que o osso de sua perna ficou enterrado no chão, na terra. Lauda disse que abandonou em Suzuka, onde conseguiria seu segundo título na Fórmula 1, após o acidente quase fatal em Nurburgring, que o fizera por paura. Nada mais normal.
Há pouco tempo, vendo uma corrida sob um dilúvio no Rio de Janeiro, ouvi Ingo Hoffman, o vencedor, dizer após a bandeirada: “Graças a Deus, acabou.†Airtinho dizia a Foyt que o carro estava perigoso em Indianápolis. Foyt contrariava, mandou Salazar, aquele que apanhou do Piquet, andar com o carro. Salazar querendo fazer graça, quase perde a vida em um acidente gravíssimo ao perder o controle do carro e destruí-lo no muro.
Ao acertar o carro após o acidente de Salazar, Airtinho conseguiria a vitória. Como dizia Camilo Cristófaro, aquele da carretera número 18, com quem algumas vezes dividi o boxes em Interlagos, arrume a barata, acerte-a. E vença.
A vitória é nossa companheira por toda a vida. Amanhã contaremos aos nossos filhos, netos. Só isso nos sobra. Em qualquer esporte. Recentemente, vimos com grande tristeza a morte de Ananias Justino na Stock V8, em Brasília. Esses carros têm mais potência que a Fórmula 1 no início da década de 70. Sinceramente, eu já havia observado que isso poderia acontecer.
Pouca gente sabe, mas em 78 bati violentamente, em Brasília, ao ser tocado por um novato na tomada de tempos. Em que bati? Pasmem, em um cupim, enorme, quase da altura do carro, que ficou destruído. O curioso é que não o havia observado. Depois, vi que havia muitos outros. E bem pertinho da sede do governo federal.
Há poucos dias, Thiago Gonçalves, quinto no brasileiro de Stock Light, disse-me que os pilotos da categoria se recusaram a correr em Goiânia, se a organização não os eliminasse do autódromo. Recordo-me também com tristeza o acidente fatal com Antonio Castro Prado.
Havíamos ocupado um mesmo boxe em Goiânia nas 12 horas, em 1976, a convite dele. Por trás daquela cara de mau, era um grande sujeito, um cavalheiro. Morreu ao chocar-se com uma corrente usada para bloquear o acesso a pista em Guaporé, após o treino. Tentava melhorar seu fórmula 3 para a corrida.
Fora das pistas tivemos um acidente gravíssimo, onde outro carro invadiu nossa pista, a noite, com chuva em uma lombada. Fomos todos para a UTI, mas graças a Deus nos salvamos. O ensinamento mais importante adquirido nas corridas foi que, antes de vencermos os outros, precisamos vencer a nós mesmos. Precisamos ir a perfeição. Isso víamos o menino do capacete amarelo fazer. Por isso admirávamos, o amávamos.
Só mais uma coisa, sobre essa história de piloto vencedor, só vindo do kart. Isso é conversa fiada. Sem dúvida a experiência do kart é válida, mas Fangio nunca sentou em um, e foi penta-campeão de Fórmula 1. O velho Chico Landi também não. Nem Stewart. (Oscar Vuolo Sajovic, piloto e engenheiro mecânico)