Deputados norte-americanos convocaram a imprensa para anunciar solenemente o banimento das french fries (batatas fritas) e das french toasts (torradas de pão francês) dos cardápios dos restaurantes do Congresso. De agora em diante serão chamadas de freedom fries e freedom toasts (batatas e torradas da liberdade).
Provavelmente os deputados ainda não descobriram que os nomes hamburger e frankfurter (cachorro-quente) homenageiam outro país que se recusa a apoiar os falcões da Casa Branca. Se lhes contarem, será mais uma grande dor de cabeça para as redes de lanchonetes norte-americanas, cujas vendas têm deslizado morro abaixo.
Fico imaginando se os congressistas de Washington descobrirem que o nosso presidente Luiz Inácio também é contra a guerra no Iraque. Como iriam boicotar o Brasil se o nosso café já foi substituído, há muito tempo, pelo colombiano? Bananas também não exportamos. O suco de laranja ninguém sabe que vai do Brasil porque passa por maquiagem, ganha cor, rótulos e embalagens sofisticadas antes de serem entregues ao varejo. Isso quando não exportam o nosso suco para o Japão como produto da Flórida.
Enquanto isso, na Alemanha, xenófobos despejam Coca-Cola na sarjeta. Se houver alguma represália às corajosas declarações do Lula a favor da paz, a gente faz campanha pela tubaína.
É incrível como se associam coisas de comer e beber à guerra. O valente e belicoso gaulês Astérix come um bom javali para sentir o sabor de cada vitória. No Porto, a dobradinha tem gosto de heroísmo. Pergunte-se a um tripeiro a origem do seu prato mais típico e ele contará uma longa história sobre a abnegação de seu povo, que dava toda a carne disponível à armada portuguesa e orgulhosamente sobrevivia de tripas. Acho que vem daí a expressão “fazer das tripas coraçãoâ€.
A comida na França não é exceção à regra. O próprio restaurante – uma invenção francesa – tem uma história inextrincávelmente enredada com a monarquia dos Luíses e da Revolução de 1789. Restaurant vem de restaurar. A primeira casa foi aberta para servir um consommé de legumes e batatas para reanimar os combalidos combatentes das barricadas de Paris.
Aqui no Brasil, onde tudo tem nome americano, seria impossível ir além de uma bravata qualquer contra a Coca-Cola. Veja que entrega em domicílio virou delivery. Comida ligeira é fast food. Queijo é xis como corruptela de cheese. Esse americanofilismo lembra o acontecido em 1962 no interior de Pernambuco. O casal de sertanejos queria ter John e Jacqueline Kennedy como padrinhos do primeiro filho. Para tanto, mandaram uma cartinha à Casa Branca. Os assessores do presidente, gentis e hábeis com a política de aproximação com a América Latina, responderam de pronto: naquele momento, os dois não poderiam sair dos Estados Unidos, mas ambos passavam a se considerar padrinhos do garoto. Por isso, ninguém da cidadezinha estranhou quando, no dia 23 de novembro de 1963, a mãe do garoto saiu pelas ruas arrancando os cabelos e gritando: “Meu Deus, mataram o cumpadre Kennedy! O que será agora da cumadre Jacqueline?†(O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)