Aos 66 anos de idade, o músico Hermeto Pascoal extravasa a jovialidade de seu espírito e confessa: “Estou muito feliz e estou numa fase muito linda”.
Em entrevista concedida ao JC antes do show realizado em Bauru, na última quinta-feira, minutos antes da passagem de som, Hermeto falou sobre a gravação do novo CD - “Mundo Verde Esperança”, do selo fonográfico Rádio MEC - e sobre seu processo de composição.
Com 14 composições próprias inéditas, gravadas em uma semana, o novo trabalho reúne, além de antigos companheiros de palco, novas caras. Boa parte delas são integrantes da Itiberê Orquestra Família.
O músico destaca sua admiração pelos novos talentos brasileiros e enfatiza que aposta no potencial cultural do País. “Estou muito feliz porque no Brasil inteiro nunca teve uma época de tantos valores individuais de instrumentistas e cantores como agora. É um negócio seríssimo, uma maravilha”, salienta.
Hermeto não se sente constrangido pelo sucesso que faz no exterior, face à pouca popularidade em sua terra natal. “Se eu estou fazendo sucesso nos Estados Unidos e moro no Brasil, é graças ao Brasil porque eu estou aqui”, afirma. Confira a seguir trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Como foi a concepção desse novo CD, em que você grava com um grande grupo de músicos, logo após a gravação do “Eu e Eles”, no qual você toca todos os instrumentos sozinho? Hermeto Pascoal - O grupo já é de muitos anos. O Itiberê (Zwarg) também está fazendo um grande trabalho com a orquestra dele. Ele é contrabaixista do grupo há 25 anos. O Márcio Bahia há mais de 22 anos. Quem tem menos ali vai fazer dez anos no grupo. É uma coisa muito bonita e agora temos convidados. Tem três cantoras excelentes que são justamente das orquestra do Itiberê. Tem as cordas também da orquestra do Itiberê, que convidamos também. Está um negócio maravilhoso; um trabalho muito bonito. Está todo mundo muito feliz. A imprensa e todo mundo está achando que é um trabalho que realmente está bom.
JC - Você descobriu na orquestra do Itiberê grandes talentos... Hermeto - É, justamente eu estou muito feliz porque no Brasil inteiro nunca teve uma época de tantos valores individuais de instrumentistas e cantores como agora. É um negócio seríssimo, uma maravilha. Eu estou muito feliz porque eu sei que quando Deus me levar - eu tenho certeza de que eu vou viver somente 300 ou 400 anos - e quando eu for eu sei que o mundo vai ficar bem entregue. Vai ficar uma maravilha com esse pessoal todo.
JC - Você considera essa etapa da sua carreira uma nova fase? Hermeto - Cada dia é uma nova fase, cada dia é uma história, cada dia é um mar novo, cada dia é uma maravilha. Estou muito feliz e estou numa fase muito linda. Passei por várias turbulências. Agora estou namorando e feliz. Tocando e cada vez inovando mais. Vendo a imprensa toda nova também - não é só na música, não. Todo mundo com a cabeça nova. Ninguém fica me perguntando toda hora quando você nasceu. O Brasil, no momento, é o país mais musical e mais criativo da terra. É só nós, de todas as áreas, acreditarmos nisso.
JC - Por falar em “cada dia é uma nova fase”, você continua compondo uma música por dia, como no ano em que lançou o “Calendário do Som”? Hermeto - Eu não paro. Eu não paro nunca. Por exemplo, cada concerto desses que a gente tem, sempre saem composições na hora. Eu faço uns improvisos às vezes que é como uma melodia. Eu chamo de improvisos melódicos. Tem aquele improviso que não tem condições de escrever. E tem uns que eu faço de propósito - para se eu quiser depois transcrever aquilo. Quase sempre eu não faço não. Tudo tem que acontecer sem premeditar. Eu não gosto de premeditar. Acho que as coisas têm que fluir.
JC - Você acha que sua música é uma música difícil de ser ouvida, como muitos críticos acreditam? Hermeto - Ainda bem que são alguns, porque a maioria, graças a Deus... Você vê: onde eu estou passando para tocar não tem mais ingressos. É quantidade e qualidade. As pessoas gostam, mesmo sem tocar nas rádios. Eu estou muito feliz de me ver com 66 anos e com um público de oito anos a 18, 19, 20, 30 anos. Muito pouquinho de 80 anos. Porque é até bom que velho não venha dormir no auditório (risos). Eu brinco com eles. Nos shows sempre tem 10% de coroas. A turma toda é jovem. Eu fiquei admirado. Como é que pode? Essas pessoas não viveram a minha geração. Mas eles falam que escutaram o meu primeiro disco e não pararam mais de comprar os discos. Isso é uma paixão. Eu fui ao Japão e fiquei louco. Eles vêm me pedir autógrafo tremendo de emoção.
JC - Você não se sente mais reconhecido no Exterior? Hermeto - Eu não estou (morando) no exterior, mas é como se eu estivesse. Eu estou em evidência e dou entrevistas em todos os meus aniversários. Eu não dei entrevista para rádio nenhuma no Brasil e ninguém me ligou para falar comigo no meu aniversário. Mas eu dei entrevista para Boston, para o Canadá, para Nova York, Los Angeles. Programas de uma hora. Tem 1.200 sites nos Estados Unidos - mais do que músicos de lá têm. Mas isso é graças ao Brasil. Mesmo com menos divulgação. Eu não queria ter esse sucesso morando fora. Tudo o que acontece com o Hermeto é porque a imprensa gosta do Hermeto. É amor. E o que acontece em tudo com o Hermeto é por amor. Porque as pessoas gostam do Hermeto. Do pouco que acontece aqui, a essência é tão forte e tão grande que paira no mundo inteiro e sai voando. Se eu estou fazendo sucesso nos Estados Unidos e moro no Brasil, é graças ao Brasil porque eu estou aqui. Eu estou provando para mim mesmo que o santo que não faz milagre em casa é pior porque não faz fora. Eu estou conseguindo fazer milagre na minha casa. Eu não sou santo não, mas o santo que gosta de mim está fazendo milagre. Para mim é uma beleza, uma coisa linda. Eu estou feliz e vou morrer sem vontade de me mudar do Brasil - se eu não viver mais 400 anos. Está bom demais.
JC - Como surgiu “Mundo Verde Esperança”? Hermeto - Fiz o CD “Mundo Verde Esperança” depois de doze anos sem gravar com o grupo - porque eu gravei antes “Eu e Eles”. Foi bom porque eu fiz outras coisas. O grupo me tomava muito tempo. Cada show que a gente toca a gente tem uma lista de 30, 40 músicas. A gente toca dez, no máximo, porque tem os improvisos. O “Mundo Verde Esperança”, estava todo mundo a fim de fazer. E ele foi quase recorde. A gente gravou em uma semana. E hoje (quinta-feira passada) vamos tocar músicas do CD também. Eu nunca toquei num lançamento de CD tantas músicas como eu estou tocando agora nesse CD. Não sei o por quê, mas dá uma vontade de tocar.