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A guerra do apartheid


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Toda guerra é, na essência, um ato imbecil que expõe a mediocridade, a disputa traiçoeira pelo poder e o sangue que escorre rumo a uma espécie de autofagia humana. Mas o conflito armado entre nações e povos ainda pode apontar para outras reflexões pouco nobres.

O conflito liderado por norte-americanos e ingleses no Iraque remete, infelizmente, à literatura de escárnio no deserto. Entre as trincheiras de combate e os mísseis teleguiados assistimos muito mais que uma história de pavor e medo.

Não obstante os ianques estarem mirando os alvos de Saddan sob o prisma editado da visão ocidental de terrorismo e da necessidade de libertação do povo iraquiano de um louco, a guerra de Bush e Blair revela outras loucuras.

Me chamou a atenção o choro de uma jovem brasileira recém-casada de uma das cidades pequenas do Interior de São Paulo que acompanha, assustada, o conflito. Do outro lado do mundo, seu marido veste o uniforme que estampa as cores da bandeira americana.

Como tantos, ele é mais um soldado que se alistou no Exército dos EUA como trampolim para subir a escada do Primeiro Mundo. O recém-casado acaba de dar uma guinada em sua história de subdesenvolvimento. E que guinada. Agora ele está no ‘front’ das tropas que fazem o cerco a Bagdá. A noiva, sem notícias completas e seguras, assiste agoniada ao marido que se alistou para mudar de vida. E como mudou!

O ‘front’ da guerra que não chega aos nossos olhos está repleto de histórias iguais à deste casal. Não são poucos os mexicanos, latinos e outros tantos cidadãos do mundo que tentaram a mesma sorte. O exército de Bush não pratica só a loucura de guerra, mas autoriza até a reflexão de que o presidente texano de testa enrrugada comanda uma batalha que também serve, em parte, a uma espécie de limpeza étnica da raça. Bush não é Hitler. É pior.

Nesta batalha, uma parte significativa dos primeiros soldados a ficar em pé frente ao inimigo não é de nacionalidade americana. A “raça pura ianque” comanda caças e os poderosos tomahawk!

A etapa final prevista para o confronto em Bagdá vai tombar milhares de iraquianos, curdos, paramilitares e civis. Mas também vai revelar que a imbecilidade da guerra e a insanidade de Bush vai além dos poços de petróleo.

Não será a primeira vez que a guerra vai revelar uma forma de apartheid social na frente dos canhões. O próprio Brasil usou escravos como força de frente de combate para matar paraguaios. E o roteiro das Sete Mulheres na telinha indica, mesmo sob a edição da ficção, que as ciganas e os lanceiros do bloco dos farrapos gaúchos também não tomavam chimarrão junto com os heróis Garibaldi e Bento Gonçalves. Eles são heróis. Ponto. Mas as chinas, via de regra, serviam à resistência farroupilha.

Longe dos seguros porta-aviões dos EUA, mexicanos, bolivianos, brasileiros, güianos, filipinos e outros tantos cidadãos do mundo estarão por terra atirando em civis iraquianos para sobreviver. Cumprem a lavagem cerebral mais cruel da guerra: matar. A guerra não é formada por nenhum melodrama de libertação protagonizada pelo habilidoso ator Chuck Norris. E também não guarda nenhum sentimento do soldado Ryan!

E, se a sorte e o acaso permitirem o retorno, estes soldados sem sobrenome ianque poderão ver a incerteza transformada em continência de trunfo no desembarque. É como se as torres do World Trade Center pudessem se reerguer sobre seus olhos no pós-guerra. É como se o dedo que aperta o gatilho passasse a contar dólares e dólares para o futuro que eles sempre almejaram.

Atenção! O plantão da guerra informa: um soldado com uniforme inglês amplia o número de baixas das forças de coalização em confronto no centro de Bagdá. Centenas de “farrapos” da guarda de Saddan caem. O soldado da coalização é um grandalhão crioulo. Dificilmente permitiriam que fosse um lorde. A guerra é insana para quem luta, para quem morre, para quem lê, para quem chora, para quem tem ódio e para quem escreve sobre suas próprias agruras. (O autor, Nélson Gonçalves, é jornalista)

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