Apesar do nome e de seguir - ao seu modo - as 14 estações da Via Sacra, as obras que compõem a exposição “Via Crucis das Vinhas da Ira” não são em nada parecidas com as tradicionais imagens vistas nas igrejas de todo País.
Pintados em diferentes estilos pelo artista plástico paulistano Carlos Jacchieri, os quadros que estarão expostos no Setor de Vivência da Universidade do Sagrado Coração (USC) a partir de terça-feira, não se limitam a mostrar as tradicionais passagens da vida de Jesus Cristo como estamos acostumados a ver.
Alguns, à primeira vista, não parecem nem tratar da temática religiosa. Isso porque Jacchieri, autor de alguns dos vitrais da Catedral da Sé, em São Paulo, uniu em seus quadros a trajetória de Cristo com a de milhares de pessoas de todas as raças e classes que formam a população brasileira, criando uma espécie de Via Crucis social, onde a figura de Jesus se encontra cercada de retirantes, religiosas, trabalhadores rurais, etc.
O conjunto das obras, cada uma com 2,1 metros de altura por 1,5 metros de largura, é um espetáculo visual sem igual. O acervo pertence ao Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, na cidade do mesmo nome, de onde só sai em ocasiões especiais. A exposição está em Bauru como parte das comemorações do jubileu de ouro da USC.
“Vi os quadros em uma mostra em São Paulo há um ano e meio e fiquei fascinada para trazê-los para Bauru”, conta Ju Machado, coordenadora do Projeto Vivaldi, uma parceria entre o seu escritório de arte e a USC, responsável pela vinda das telas.
Para Machado, apesar de “As Vinhas da Ira” serem um fato bíblico, as telas expõem claramente os conflitos sociais do homem contemporâneo. “O próprio pintor retratou a figura do Jesus humano, tanto que não existe na série um quadro com a ressurreição”, lembra.
Essa é mais uma das liberdades que o pintor tomou com relação à Via Crucis tradicional. O título da exposição faz referência à história do patriarca Noé, que depois do dilúvio teria plantado uma vinha, inaugurando a atividade agrícola do homem e a sua fixação na terra.
A lenda diz que a vinha também gerou conflitos familiares para Noé, o que resultou na humanidade dividida em raças que se exploram e se escravizam até hoje.
Teatro
O tema da Via Crucis também será lembrado pelos alunos do curso de Artes Cênicas da USC, que abrirão a exposição dos quadros com uma performance intitulada “A Via Crucis Segundo Maria” .
A diretora da apresentação, Áurea Galli explica que a figura de Virgem Maria narrará as estações da Via Sacra, traçando um paralelo com as telas de Jacchieri. A encenação contará com 45 atores, sendo 43 alunos da USC e dois convidados. “Um texto do Papa João Paulo II será utilizado na apresentação e todos clamarão pela paz”, revela a diretora.
• Serviço
Exposição “Via Crucis das Vinhas da Ira”, de Carlos Jacchieri. Setor de Vivência da USC, de 8 a 25 de abril. Grátis. Na abertura da mostra, alunos de Artes Cênicas apresentarão a performance “A Via Crucis Segundo Maria”, às 18h, no pátio da universidade. Rua Irmã Arminda, 10-50. Informações: (14) 235-7000.
____________________
O artista
Nascido em São Paulo, em 1921, Carlos Jacchieri é pintor, escultor, ensaísta, cenógrafo e ilustrador.
Além disso, já foi professor de diversas disciplinas ligadas à arte em faculdades paulistanas e é autor de livros como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, onde se lê claramente, através dos símbolos, a doutrina dos evangelhos; e “Os Deuses Não Eram Astronautas”, uma denúncia da indústria da produção de fraudes culturais, ambos editados na década de 70.
Jacchieri realizou diversos trabalhos de pintura, escultura, murais e vitrais, entre os quais se destacam alguns vitrais da Catedral da Sé, em São Paulo; o altar-mor da Capela da Sagrada Família, no bairro do Ipiranga; e o mural “O Homem e os Seus Meios de Trabalho”, na agência do Bando Itaú na Avenida Rangel Pestana, também na Capital, onde continua morando.