Cultura

As outras guerras do cinema

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Agora que a invasão anglo-americana do Iraque caminha para o seu final, não deve demorar muito para que surjam nos cinemas os primeiros filmes a mostrar o conflito.

Um aviso: que ninguém espere por enquanto cenas que lembrem a imagem daquele garoto todo queimado e sem um dos braços num hospital, ou das centenas de iraquianos brigando por comida na fronteira do Kuwait.

Por outro lado, é bem possível que algum traga a imagem daquele soldado esfregando a bandeira americana na cara da estátua de Saddam Hussein, em Bagdá, e cenas de como “os bravos guerreiros ocidentais libertaram o povo iraquiano das garras de um ditador sanguinário”.

A razão é simples, a guerra do cinema não tem nada a ver com a guerra da vida real. E essa diferença não é recente.

A primeira filmagem real de um conflito armado aconteceu nos primórdios do cinema, ainda no século 19. O inglês Frederick Villiers registrou a batalha de Volo, travada entre os exércitos grego e turco, em 1897. Dias depois, já em Londres, tentou exibir o filme e não teve sucesso. Uma produtora francesa já havia exibido nas salas londrinas uma fita com atores e maquetes reproduzindo a mesma batalha.

Foi a primeira derrota da realidade para a ficção no gênero, uma derrota que praticamente determinou como seriam tratadas as histórias de guerra no cinema. A comparação das imagens vistas nas reportagens de televisão no Iraque com cenas de filmes recentes, como “Falcão Negro em Perigo”, por exemplo, indica a razão pela escolha da ficção.

Os conflitos reais são demorados, travados nos mais diversos cenários, em todas as situações climáticas possíveis. No cinema, a realidade é diferente. Mesmo que a história se passe num local inusitado, sob a chuva, numa seqüência muito longa, há a trilha sonora, a edição rápida, os efeitos especiais, flashbacks... Existe, sobretudo, um outro fator: a ideologia.

Nenhum gênero cinematográfico é tão poderoso como arma de propaganda política e ideológica como o filme de guerra. É por isso que, geralmente, os filmes lançados durante ou imediatamente após um conflito real não trazem a exata realidade dos fatos. Eles precisam reafirmar ou justificar o conflito para o seu próprio povo ao invés de gerar reflexões.

O período da Segunda Guerra Mundial é o melhor exemplo. Hollywood já era uma máquina poderosa quando os Estados Unidos entraram no conflito, no final de 1941. Não demorou muito para que as telas de todos os países aliados estivessem lotadas de fitas sobre como os bravos soldados americanos, franceses e ingleses lutavam pela democracia contra as forças alemãs, italianas e japonesas.

Nos países do eixo Berlim-Roma-Tóquio não era diferente. Os heróis, porém, eram outros, claro.

As guerras da Coréia e do Vietnã reforçaram essa tendência. O primeiro filme americano a abordar os vietnamitas, por exemplo, tem nada mais nada menos do que John Wayne à frente do elenco conduzindo os boinas verdes (título do filme) na luta contra os orientais. O filme não só justifica a presença americana na região como incentiva o conflito.

Anos mais tarde, Oliver Stone contaria a história do veterano do Vietnã Ron Kovic, em “Nascido em 4 de Julho”, mostrando que o filme com John Wayne foi uma das razões que levou o então jovem Kovic (Tom Cruise) a se alistar.

Imprecisões históricas

No esforço para tornar o filme de guerra um espetáculo sangrento (já que isso é inevitável), mas aceitável, os cineastas nunca se prenderam muito aos dados históricos. Os americanos, principalmente, não poupando nem mesmo os eternos aliados britânicos.

Em “Um Punhado de Bravos”, rodado em 1945, o ídolo da época, Errol Flynn, lidera um grupo de pára-quedistas americanos que - praticamente sozinho - vence a guerra contra os japoneses na Birmânia. A batalha realmente ocorreu e os orientais saíram derrotados, mas pelos britânicos, que, irritados, proibiram a exibição do filme na Grã-Bretanha.

Recentemente, o divertido “U-571 - A Batalha do Atlântico” cometeu a mesma gafe ao creditar a um grupo de marinheiros americanos (e à inteligência naval daquele país) a captura de uma máquina decodificadora alemã fundamental para o sucesso dos aliados na Segunda Guerra. Os ingleses, mais uma vez os verdadeiros autores da proeza, foram deixados de lado.

É claro que cinema é entretenimento e, assim, não tem obrigação de seguir à risca a História (a não ser que se trate de um documentário, obviamente) mas o exagero nas telas às vezes beira o ridículo, como no caso de filmes como “Rambo 2 - O Resgate”, no qual Sylvester Stallone volta para o Vietnã e - sozinho - se vinga pela derrota dos compatriotas na guerra.

Rambo, aliás, representa de uma forma absurdamente exacerbada, a figura do herói, fundamental nos filmes de guerra. Equivocadamente ou não, é através dos olhos dele que toda a ação está sendo vista e toda ideologia transmitida.

Para amenizar essa figura, que vai ser mostrada matando outros semelhantes, é comum que os filmes tragam um drama pessoal acompanhando a narrativa, um romance, uma causa nobre por trás de tanto sangue, como acontece em “O Resgate do Soldado Ryan” e “Pearl Harbor”. O primeiro, um bom filme de guerra e o segundo, um exemplar fraco do gênero que só serve para reproduzir com o bom uso dos efeitos especiais o ataque japonês ao porto havaiano.

Efeito do tempo

A medida em que se distanciam do período que reproduzem na tela, os filmes tendem a mostrar o conflitos sob outra ótica, geralmente sem tanto ufanismo.

Assim, foi preciso quase uma década para que o cinema começasse a mostrar o Vietnã como a loucura que foi, no clássico “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, feito em 1979. Mesmo nesse caso o filme não foi uma unanimidade quando lançado. Só nos anos 80, com “Nascido para Matar”, de Kubrick, “Platoon”, de Oliver Stone e “Pecados de Guerra”, de Brian de Palma, entre outros, que o conflito foi sendo reavaliado pela sétima arte.

O mesmo deve acontecer agora com o conflito no Oriente Médio - se ele efetivamente se resumir à invasão do Iraque. O triunfo anglo-americano deve se reproduzir em dezenas de filmes nos próximos anos até que surja um roteiro honesto - mesmo que o conflito mostrado não tenha nada a ver com árabes.

O primeiro exemplar dessa safra promete ser “As Lágrimas do Sol”, estrelado por Bruce Willis. No filme, o ator vive um militar que - enviado para retirar uma pessoa de uma zona de conflito na África - decide desobedecer as ordens de seu superior para defender a população local de um massacre por milícias internas. “A vida de muitos dependerá da coragem de poucos”, diz o narrador no trailer da fita. Seria cômico se não fosse trágico.

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