Diz-se, na Índia, que a fonte do sofrimento e da infelicidade é a ignorância. É verdade, porém, menos que a ignorância por falta de saber - afirma Leloup - trata-se da ignorância de saber quem somos. A ignorância da nossa humildade e da nossa grandeza.
Quando, entretanto, voltamos os olhos para essa guerra estúpida entre americanos e iraquianos, sentimos o quanto ambos os povos concentraram-se muito mais na sua pequenez que na sua grandeza. De um lado, um Bush prepotente, presidindo uma nação reincidente no terrorismo internacional. É óbvio que nada poderia justificar as atrocidades cometidas naquele fatídico 11 de setembro, embora só possamos pensar nos americanos como “vítimas inocentes” se formos acometidos por uma crise de amnésia. Chomsky afirmou, com propriedade, ser mais fácil personalizar o inimigo, identificar um símbolo do Grande Mal, do que buscar compreender os atos escondidos por trás das atrocidades praticadas.
Saddam Hussein é, decididamente, um dos piores flagelos da humanidade. Não nos esqueçamos, porém, apesar dos ocidentais contarem outra história, que os EUA fortaleceram esse facínora, mesmo quando cometia grandes atrocidades, incluindo o bombardeio com gás contra os curdos, em 1998.
Fôssemos fazer um retrospecto e a história iria longe. Como sempre, há vários bin Ladens de ambos os lados. O homem está, gradativamente, perdendo sua dimensão. A tradição cristã deveria falar um pouco mais sobre nossa grandeza, em lugar de sublinhar tanto nossa pequenez. Nos grandes textos dos Padres da Igreja insiste-se: “Cristão! Lembra-te de tua dignidade: lembra-te que és um outro Cristo”. Erich Fromm alerta-nos para essa dicotomia existencial do homem: “ser um animal e apesar disso transcender a natureza animal”.
O bispo da parte sul da cidade do México insta os americanos a “refletir porque são tão odiados”, uma vez que os EUA geram tanta violência para proteger seus interesses econômicos. Se é tão difícil assim amar o inimigo, por que não começar pela via do não-agir? Quer dizer, evitar odiá-lo, deixar-lhe a liberdade de nos detestar? Só que não é tão fácil assim, já que interesses econômicos, materiais estão envolvidos nesse cenário fratricida. A paz, ainda lembrando Fromm, é mais do que a não-guerra. É a harmonia e união entre os homens, é a superação da distância e da alienação.
Quando “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará aos pés do cabrito, o novilho e o leão e a ovelha viverão juntos e um menino os conduzirá”, segundo as expressões supremas de Isaías? A escalada americana de violência era bem o que bin Laden e seus associados estavam desejando e, uma vez armada a cilada, fica difícil concretizar-se o desaparecimento do fanatismo religioso e da ganância social. Será que existe um caminho para transpor os abismos? Existirá uma saída para o absurdo? O problema fundamental não é se “Deus está morto”, mas se “o Homem está morto”. E, como sabiamente assevera Fromm, no caso do homem estar realmente morto, então, o problema de Deus deixará de ser um problema... Já pensaram numa sociedade sem Deus? (Dra. Maria da Glória De Rosa - mgderosa@bol.com.br)