A Secretaria Municipal de Saúde não consegue contratar pediatras para atender a demanda de pacientes nos prontos-socorros (PS) porque oferece salário pouco atraente. Além disso, o ambiente de trabalho é hostil, onde os riscos são elevados devido ao excessivo número de atendimentos. Essas são as razões apontadas por especialistas ouvidos pelo JC para explicar o déficit de profissionais na rede municipal de Saúde.
O problema, que se arrasta há mais de um ano, resultou no fechamento da pediatria dos PSs do Bela Vista, Mary Dota e Ipiranga aos domingos das 7h às 19 horas, e na sobrecarga no Pronto Atendimento Infantil (PAI). De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, existe uma carência de 212 horas para pediatria, o que corresponde a nove profissionais contratados por 24 horas semanais.
A suspensão do atendimento infantil é alvo quase diário de protestos dos pais. Ontem, uma senhora que pediu para ter o nome preservado procurou o PS do Bela Vista e não conseguiu atendimento para seu filho. Segundo ela, o especialista de plantão foi gentil e explicou que não tinha como atender a demanda porque estava sozinho - o colega havia faltado.
“Não condeno os médicos, mas o poder público. É tanta gente esperando que é impossível acreditar em atendimento de qualidade. O prefeito tinha que tirar a mão do bolso e pagar bem para dispor de bons profissionais”, defende.
Salário
E é justamente a baixa remuneração que faz do pediatra um profissional escasso no mercado. Pelo menos na opinião do presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) Regional Bauru, José Henrique de Oliveira Godoy. O salário inicial para médico de PS com carga horária de 24 horas semanais pago pela administração municipal é de R$ 2,2 mil.
“O pediatra ganha principalmente pelo número de consultas. Com a implantação do Plano Real, o valor da consulta caiu. Na época, a remuneração médica era de seis mínimos por 20h semanais, sendo que o mínimo era da ordem de US$ 100,00. Além disso, é uma atividade estressante porque envolve o complexo familiar”, esclarece.
Ele ressalta que o médico de família recebe cerca de R$ 5 mil para desenvolver trabalho em período integral em São Paulo e que um salário próximo a esse poderia despertar a atenção de novos profissionais.
Já para o coordenador de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Marília (Unimar), Jairo César dos Reis, só um bom salário não basta para seduzir o pediatra. “A quantidade de atendimento é muito grande e o profissional fica mais suscetível a erros. Quem tem opção não se sujeita. Vale mais a pena ficar apenas com o consultório. Além disso, o número de recém-formados é baixo”, defende.
Concorda com ele o chefe do setor pediátrico do Pronto-Socorro da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e professor da Faculdade de Medicina, Antero Frederico Macedo de Miranda, para quem o número de interessados na especialidade caiu nos últimos anos.
Sobrecarga
“Antes tínhamos aproximadamente 120 candidatos para as 15 vagas de residência. Agora, o total passou para cerca de 80. Pessoalmente, acredito que as vagas no PS também não são preenchidas porque o volume de atendimento é exagerado é incompatível com o critério de qualidade. Mesmo que o salário melhore, com o tempo o pediatra desiste devido à sobrecarga de trabalho”, comenta.
O acúmulo de trabalho e o estresse provocado por ele, além da baixa remuneração, são as principais queixas registradas pelo JC ao conversar com profissionais que trabalham nos prontos-socorros de Bauru. Eles também reclamam da exposição que sofrem ao aceitarem um emprego na rede pública.
“Tem profissional que prefere trabalhar no posto de saúde, mesmo ganhando menos, porque o número de atendimento é limitado, a exposição e os riscos inerentes à profissão são menores. Porém, a quantidade de plantões pediátricos no município é grande, o que dificulta novas contratações”, lembra o pediatra Ajax Rabelo Machado.
De acordo com seus cálculos, entre o Pronto-Atendimento Infantil, o Hospital de Base, a Maternidade Santa Isabel, o Hospital da Unimed, da Beneficência Portuguesa e Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o total de plantonistas chega quase a 20 profissionais.
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Perfil do plantonista
Só trabalha como plantonista de pronto-socorro quem não tem outra opção. Normalmente, quem está no início ou no fim da carreira, aposentando. A opinião é do pediatra Ajax Rabelo Machado, para quem o especialista permanece na atividade até que sua condição financeira melhore.
Pensa de maneira semelhante a secretária municipal de Saúde, Sônia Fiocchi. Ela acrescenta à lista dos que se submetem ao PS os profissionais que precisam sustentar a faculdade de seus filhos.
Já para o presidente da Associação Paulista de Medicina Regional Bauru, José Henrique de Oliveira Godoy, o recém-formado tem o perfil do médico de pronto-socorro porque sai da faculdade com pique necessário para o ritmo de trabalho exigido.
Porém, a opinião não é unânime. Para a delegada da região de Bauru do Conselho Regional de Medicina, Tereza Faifer, como os procedimentos no PS são aplicados sob pressão, o ideal é que profissionais mais experientes sejam contratados. “Para trabalhar nos pronto-socorros é preciso ter uma visão ampla e formação sólida”, conclui.