A guerra do Iraque finda-se. Mas o martírio e os problemas decorrentes do governo de Saddam Hussein e da guerra anglo-americana perdurarão por anos nas vidas dos civis iraquianos. Depois de passarem mais de duas décadas sob o governo de Saddam, um regime autoritário, sangrento, que não recusara esforços a fim de desestruturar etnias contrárias ao regime e de “desaparecer” com os mais diversos tipos de contrários ao mesmo, os iraquianos ainda terão de se deparar com um governo provisório militar provido pelo governo norte-americano que deverá perdurar por no mínimo dois anos, segundo grandes da política estadunidense têm apresentado à população mundial, como é o caso do secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld.
Como em um filme hollywoodiano de ação, vimos chegar às telas de nossas televisões as mais horrendas faces de uma guerra: martírio, morte, sofrimento e resignação da grande parte dos seres humanos do Iraque, a população civil. O Iraque tem uma população de aproximadamente 25 milhões de habitantes, e esse povo viveu todos os males do regime Hussein: a população Xiita foi marginalizada e permaneceu calada frente às atrocidades do governo de Saddam; a minoria Curda, ao Norte do Iraque, além de marginalizada, foi alvo de armas químicas e ataques esporádicos às suas cidades, trazendo morte, fome e desespero à inocentes, crianças, mulheres e velhos, que estavam muito longe das trincheiras.
Para muitos destes, a vitória da coalizão anglo-americana significa pôr fim uma ruptura desse governo covarde e assassino dos Hussein, como podemos ver em algumas manifestações da população civil à entrada dos exércitos norte-americano e britânico nas cidades. Mas o que eles muitas vezes não têm em mente, é que as armas e o terror da guerra ainda podem assombrar suas casas e famílias por anos a fio.
As imagens da Guerra do Iraque nos fazem pensar se não teria sido melhor esperar mais algumas semanas como requisitavam diversos governos, a exemplo da França de Chirac, a Alemanha do premier Schroeder, a Rússia de Putin, a República Popular da China, entre outros. Essas imagens chegam à nós brasileiros, e à grande maioria da população mundial, aumentando o antiamericanismo e os pedidos de paz por todo o globo; mas essas imagens de crianças desmembradas, queimadas, de famílias aterrorizadas, não chegam à população que mais importa, que realmente tem força para por fim a atos de guerra desnecessários: a população dos EUA.
Sem a contrariedade da opinião pública norte-americana, o governo Bush pôde dar continuidade à guerra e articular um governo militar, comandado por um general da reserva das Forças Armadas dos EUA. A ONU, que já não tivera como deter essa guerra unilateral da coalizão, e portanto, teve sua imagem arranhada, agora se vê em uma situação ainda mais frágil: pode não participar da reconstrução do Iraque, o que certamente colocará mais ainda em xeque tal organismo, que em mais de cinco décadas de história teve um papel fundamental em diversas questões do cenário internacional.
O quatro futuro ainda é incerto, mas podemos tentar esboça-lo tendo em vista as narrativas dos falcões norte-americanos: os iraquianos ainda conviverão por muito tempo com as armas perto de suas casas, com tanques nas ruas de suas cidades, com o caos urbano, com o medo de ataques terroristas contra tropas americanas e as possíveis retaliações à estes atos. Em suma, ainda viverão por algum tempo um governo de medo e terror, um governo militar, um governo das armas, e não dos civis. (O autor, Edson Augusto de Carvalho Balestri, é estudante de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica - PUC - SP)