Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) mostra uma situação preocupante para a educação brasileira. O levantamento, feito com 4,6 mil professores de dez Estados, afirma que 53% deles têm entre 40 e 59 anos de idade e que caminham para a aposentadoria sem haver uma renovação na mesma medida. Os baixos salários seriam a principal explicação para esse fenômeno.
Embora o estudo não tenha sido feito em São Paulo, as entidades consultadas pela reportagem em Bauru apontaram um quadro semelhante. “A conclusão de qualquer pesquisa sobre a educação sempre acaba refletindo o País como um todo, mesmo que a amostragem seja apenas de um Estado ou município”, afirma o dirigente regional de ensino, Jair Sanches Vieira.
Para ele, o que está havendo é uma mudança no perfil do profissional. “A educação básica tradicional, sem laboratórios de informática, deve acabar logo. O jeito de ensinar e, posteriormente, o de aprender, está sofrendo alterações. Quando o processo estiver concluído, o jeito de pagar também será melhorado.”
A diretora do Centro do Professorado Paulista de Bauru, Vera Lúcia Durand da Silva, acredita que a questão salarial ainda é o principal empecilho para atrair os mais jovens. “Os professores de 1.ª e 2.ª séries ganham R$ 600,00 por 30 horas semanais e muitos estão fazendo da profissão um bico. Muitos começam a carreira, mas com o passar do tempo vão migrando para outras.”
Segundo ela, a cidade começa a sentir os efeitos desse problema. “Nós ainda temos uma frente de trabalho boa, mas já estamos verificando a dificuldade em encontrar gente para trabalhar com determinadas disciplinas, como a química. Quem se forma nessa área prefere procurar emprego nas empresas.”
A vice-diretora do CPP, Neuza Aracy Costa Sampaio, faz outra constatação. “Há mais de 12 anos não temos concursos estaduais de 1.ª a 4.ª séries. O professor entra como temporário e acaba ficando assim indefinidamente, o que não compensa.”
O dirigente Jair Sanches Vieira concorda. “O efetivo é mais entusiasmado. No segundo semestre teremos um concurso para a contratação de educadores. Ainda não sabemos quantas vagas serão oferecidas, mas vamos aumentar o nosso quadro.” Segundo ele, a Diretoria Regional de Ensino de Bauru conta hoje com 2,5 mil profissionais.
Evolução
A professora do Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (Cefam) Alessandra Moscheta Perozim diz que cabe ao professor buscar um aperfeiçoamento. “É claro que o salário não é o ideal, mas quem não fica parado e passivo consegue ganhar mais. Durante o magistério, procuramos mostrar aos alunos que só o ensino médio não basta. É preciso que cada um procure sempre evoluir, fazendo uma faculdade e depois a pós-graduação.”
Segundo ela, que está há seis anos no Cefam, também é preciso gostar do que se faz. “Eu amo a minha profissão. Ela é muito bonita, pois prepara a criança para a vida.”
A professora de educação física Valéria Cristina Scarabelo, que leciona há cinco anos, concorda com essa visão. “O salário deveria ser melhor, mas acho que também depende da vocação. Estou muito satisfeita com o meu trabalho. Desde a 5.ª série sonhava em trabalhar nessa área e foi o que eu fiz depois que terminei o curso na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.”
Valéria diz, porém, que a predominância de profissionais perto da aposentadoria é visível. “Na escola estadual em que dou aulas, apenas dez dos cerca de 40 educadores estão em início de carreira.”
A professora aposentada Benedita Mantovani Camilo lembra com saudade dos velhos tempos. “Comecei lecionar em 1960. Era uma época em que o professor era valorizado. Hoje, além do salário ruim, ele não tem mais o respeito dos alunos.”
Para ela, falta qualidade no ensino. “Há professores que são formados em pedagogia e não conseguem comandar uma classe.”
O vice-diretor do Cefam de Bauru, Giácomo Cannone, diz que um dos atrativos do magistério ainda é uma bolsa de estudos fornecida pelo governo. “Os alunos recebem uma ajuda de R$ 200,00, pois passam o dia todo aqui. O valor é destinado à alimentação, transporte, uniforme e material de apoio.”
Segundo ele, nem todos acabam seguindo carreira. “Das 120 pessoas que começam o curso, apenas 10% desistem antes de concluí-lo. Depois, há os que continuam na área, mas existe uma parcela que procura outro caminho, um indicativo de que só estavam aqui pela bolsa.”
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Confederação pretende fazer estudo no Estado de S. Paulo
A presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Jussara Dutra Vieira, diz que a pesquisa sobre a educação básica brasileira deve se estender a outros Estados, inclusive São Paulo, no segundo semestre. “Nós aplicamos o questionário durante a Semana de Educação de 2002. Os dez Estados abrangidos neste trabalho são os que conseguiram respondê-lo. Neste ano pretendemos contemplar os demais.”
Para ela, a pesquisa revela dados alarmantes. “Apenas 2,9% dos educadores têm entre 18 e 24 anos. Além disso, a média de tempo de serviço dos que estão na ativa é de 15 anos.”
Vieira diz que é fácil encontrar o culpado por essa situação. “Nos últimos anos está havendo um arrocho salarial cada vez maior. É por isso que a CNTE elegeu como prioridade a luta por um piso salarial mais justo. Nós já convivemos com os contratos temporários e, se nada for feito, o quadro tende a se agravar.”
Segundo ela, a infra-estrutura oferecida nas salas de aula está abaixo do nível desejado. “Não adianta o professor ter a graduação e estar adequado à modernidade se na escola não tiver computador.”
A pesquisa traz também alguns dados curiosos. A maioria dos professores é mulher, é casada ou tem companheiro, trabalha na rede estadual, não tem computador e vive em casa própria perto do centro da cidade.
Os Estados que fizeram parte do trabalho foram Tocantins, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Paraná, Alagoas, Mato Grosso, Piauí, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul. Os questionários foram tabulados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).