O dramaturgo e escritor bauruense Mauro Rasi, de 53 anos, morreu no início da tarde de ontem, em seu apartamento, no Leblon, na zona sul do Rio Janeiro, onde morava há mais de vinte anos. Ele vinha se tratando há um ano de câncer no pulmão e havia feito uma cirurgia há pouco tempo para retirar um tumor da bexiga. Seu corpo será sepultado hoje à tarde no Cemitério dos Ingleses, na região portuária do Rio.
Atualmente, Rasi escrevia crônicas para o jornal O Globo e estava dirigindo, no Rio, a peça “Batalha de Arroz num Ringue para Dois”, com Miguel Falabella e Cláudia Gimenez. A pré-estréia da comédia - um texto que havia escrito ainda na década de 80 -, no dia 13 de fevereiro, foi sua última aparição em público.
Em nota, ontem à tarde, o prefeito Nilson Costa decretou luto oficial de três dias em todo o município. “Rasi, como um grande intelectual, foi um dos bauruenses que mais projetaram positivamente o nome de Bauru no Brasil e até internacionalmente. Esta homenagem é o mínimo que a nossa população pode fazer a um filho tão ilustre desta terra”, declarou o prefeito.
Rasi foi um dos autores teatrais de maior sucesso nas duas últimas décadas. Começou na comédia ligeira, comentando o cotidiano político e social, que passou a ser conhecida como besteirol (título que mais tarde renegou), mas foi tornando seu trabalho mais denso, em peças geralmente protagonizadas por estrelas da televisão, como Marieta Severo, Nathalia Timberg, Fernanda Montenegro, Suzana Vieira, etc.
O dramaturgo nasceu em Bauru e morou na cidade até o final da década de 60, mas nunca deixou de citar suas origens em entrevistas (em muitas das quais se referia a Bauru como sendo sua Rimini - uma referência à cidade onde nasceu o cineasta Federico Fellini que, como ele, sempre lembrava da terra natal) e também em suas peças, inclusive na mais famosa de todas: “Pérola”, que escreveu em homenagem à sua mãe, em 1994.
Sua estréia como dramaturgo aconteceu em Bauru, aos 13 anos, com a peça “O Duelo do Caos Morto”, que tinha em cena um grupo de jovens se embebedando e conversando sobre as próprias vidas.
Na cidade, aos 16 anos, quando ainda estudava para ser concertista e não perdia um filme no cinema, ele ainda montou “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, uma semana antes da versão original da peça, com Paulo Autran, ser apresentada.
No fim dos anos 60, Rasi teve uma crise depressiva e viveu três anos entre Paris, Londres e Nova York. Passou outros três anos em São Paulo, no início dos anos 70, até que 1971 conseguiu montar seu primeiro espetáculo oficial: “A Massagem”. A ele se seguiu a comédia musical “Ladies da Madrugada”, estrelada por Patrício Bisso e que o dramaturgo tentava remontar ainda este ano.
O primeiro Molière veio em 1987, como melhor autor teatral, pela peça “A Cerimônia do Adeus”, que trazia os atores Yara Amaral e Sérgio Britto. O dramaturgo montou em 1989 “A Estrela do Lar”, com Marieta Severo e Emílio de Mello, e, em 1992, “Baile de Máscaras”, peça que recebeu quatro Molière.
Em 1993, estreou “Viagem a Forli” e em 1994 “Pérola”, no qual a atriz Vera Holtz vivia uma matriarca italiana.
A primeira vez em que dirigiu um texto que não havia escrito foi em 1998, com “Arte”, de Yasmina Reza, tendo no elenco os atores Paulo Goulart, Pedro Paulo Rangel e Paulo Gorgulho. Em 1999 repetiu a dose 1999 com “O Crime do Dr. Alvarenga”, adaptação de uma peça de seu pai Oswaldo Rasi.
Um ano depois, escreveu e dirigiu “Alta Sociedade”, protagonizado por Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi. Seu mais recente trabalho, com Falabella e Gimenez, estava cotado para se tornar um programa de televisão na Rede Globo. O mesmo já havia acontecido - sem sucesso - com a peça “As Tias de Mauro Rasi”, de 1996, que chegou a ter um piloto rodado mas que acabou não indo ao ar.
Na televisão, Rasi escreveu textos para os programas “O Planeta dos Homens”, “Armação Ilimitada” e “TV Pirata”, os dois últimos hoje considerados clássicos.
____________________
‘Pérola’ foi maior sucesso do diretor
O espetáculo “Pérola”, escrito em homenagem a sua mãe, que morreu em 1994, foi o grande sucesso comercial de Mauro Rasi e um dos maiores da história do teatro brasileiro nas últimas duas décadas.
A peça estreou no Rio de Janeiro em 1994 e rodou o Brasil, permanecendo em cartaz por cinco anos e chegando à impressionante marca de 500 mil espectadores. Em Bauru, “Pérola” foi apresentada duas vezes. Em 1997, durante a turnê nacional, e no final de 1998, ambas no Teatro Veritas, da Universidade do Sagrado Coração (USC).
Altamente biográfico - como diversos trabalhos de Rasi - o texto mistura drama e comédia numa “egotrip” do dramaturgo dentro da sua própria família, onde a figura central é sua mãe, vivida pela atriz Vera Holtz.
A peça contava ainda com Sérgio Mamberti (no papel do seu pai) e Emílio de Mello, entre outros, e foi a grande vencedora da segunda edição do Prêmio Sharp de Teatro, um dos principais do País (Rasi já havia vencido o Molière em 1987 por “A Cerimônia do Adeus”).
Em 1999, o dramaturgo voltou ao universo familiar em “O Crime do Dr. Alvarenga”, uma adaptação de uma peça escrita pelo seu pai, Oswaldo.
Vera Holtz
Para Holtz, “Pérola” foi uma experiência inesquecível. “É uma obra-prima” definiu ontem a atriz, numa entrevista por telefone ao JC logo após receber a notícia da morte de Rasi. “A gente ficou muito tempo em cartaz, é com certeza uma das grandes obras da carreira dele”. disse.
A atriz - que se tornou grande amiga de Rasi quando foi escolhida por ele para viver a personagem Pérola - revelou que conversou com o dramaturgo pela última vez há dois meses, em seu apartamento e que ele em nenhum momento se mostrou abatido pela doença.
“Fui à casa dele e a gente conversou sobre a vida, sobre trabalho. Ele não gostava muito de falar da doença. Ele era uma pessoa muito alegre, que tinha o compromisso de estar bem. Era outro tipo de observação que ele tinha da vida, era um artista”, afirmou.
Segundo Holtz, Rasi estava muito feliz com a sua trajetória. “Ele me disse: ‘eu não queria mudar nada na minha vida’. Ele foi muito feliz, não demonstrava outro sentimento a não ser o de estar bem com tudo o que viveu”, lembra a atriz.
Na opinião de Holtz, o teatro brasileiro só lucrou com Mauro Rasi, para ela, uma mente privilegiada. “Ele é uma pessoa que dedicou a vida para inventar uma nova realidade, ele vivia o tempo todo preocupado, observando coisas para transformar em uma esquete ou um espetáculo, uma crônica. Ele via procurando coisas para transformar”, disse.
“A obra dele vai continuar existindo, ele vai deixar de produzir e é difícil constatar que não teremos mais nenhum texto inédito de Mauro Rasi, mas a dramaturgia dele está aí, as crônicas estão aí”, declarou.