O ser humano precisa refletir sobre si mesmo e sua relação com o outro para construir uma sociedade menos violenta. Essa é a linha principal do 1.º Fórum Parceiros da Paz: Ghandi - a construção de uma Cultura de Paz, evento que começou ontem à noite na Universidade do Sagrado Coração (USC) e segue até domingo.
O fórum, organizado pelo Movimento Parceiros da Paz, defende a harmonia entre os povos e a integração entre as culturas do Brasil e da Índia. Uma das conferencistas, Ieda Maria Cavalli de Aguiar Filgueiras, que é titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Presidente Prudente, vai falar sobre os vários fatores da violência urbana e da sua experiência na Índia, onde passou um mês num programa de intercâmbio do Rotary Club.
Ela, que presidiu parte do inquérito do assassinato do juiz Antônio José Machado Dias, no mês passado, conta que a Índia, um país muito parecido com o Brasil em vários aspectos, a violência é muito baixa. “A Índia é um país de terceiro mundo como o Brasil, mas lá não há a violência urbana que temos aqui. O que difere entre os dois países são os valores. Na Índia, o povo valoriza mais o espiritual e menos o material. E esse pode ser um caminho para nós reduzirmos a violência”, diz.
A delegada acredita que a valorização de questões espirituais pode ajudar a construir uma sociedade de paz. “Os indianos não são consumistas como nós, do Ocidente. No modo de vestir-se, por exemplo, eles se igualam. Não há essa busca pelo material. Os valores familiares também são muito fortes”, conta. Ieda, ressalta, no entanto, que não há uma solução pronta para a paz. “O caminho é discutirmos o assunto e refletirmos sobre como estamos vivendo”, completa.
O padre Roberto Franscico Daniel, o padre Beto, outro conferencista, explica que a paz, sob a análise ética, é a boa convivência do indivíduo com ele mesmo, com o outro e com a sociedade, e não a ausência de conflitos. “A criminalidade é uma reação, errada, de busca de solução para os conflitos. Acho que o único caminho para a paz é o diálogo, a conversa”, afirma.
Ele ressalta, no entanto, que a Índia, apesar de ser um país bem menos violento que o Brasil, não deve ser idealizada. “A Índia está sendo mitificada. A verdadeira Índia tem uma forte divisão de classes e grande faixa da população é miserável. A espiritualidade deve ajudar na mudança social. No Nordeste, por exemplo, a espiritualidade cristã é muito grande, mas é uma fé que não ajuda a transformar a realidade. A paz precisa ser ativa, levar ao conflito de idéias para melhorar o mundo”, diz.
Para o padre Beto, fóruns como este são importantes porque levam a sociedade a discutir, refletir sobre o mundo que a cerca. “Não há solução pronta. Nós temos que encontrar o caminho da paz. E tem muita gente que está alienada sobre isso, que se preocupa mais com a guerra distante do que os problemas da sua cidade”, diz.
O médico José Ruguê Ribeiro Jr., que dará conferência sobre medicina ayurvédica (tratamento à base de ervas, dieta e exercício), diz que o bem-estar emocional e mental do indivíduo, além do bem-estar físico, é importante para a paz. “O bem-estar integral do ser humano ajuda na construção de paz porque à medida que o indivíduo se conhece melhor, aprende a resolver seus conflitos e a tendência é ser menos violento”, explica.
No Brasil, a medicina ayurvédica, que nasceu na Índia, ainda é pouco adotada, segundo Ribeiro Jr. Ele acha que a medicina ayurvédica pode ajudar muito a construir uma sociedade menos violenta.
A programação inclui conferências, oficinas culturais e apresentações artísticas e uma caminhada pela paz no domingo, saindo da USC até o Parque Vitória Régia. A expectativa do Movimento Parceiros da Paz, que organiza o fórum, é receber cerca de 2.500 pessoas nos quatro dias do evento que tem apoio do JC e da 96FM.
• Serviço
A inscrição para as oficinas é um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada a instituições de Bauru. As inscrições podem ser feitas na Pharmacia Flor da Terra (rua Rio Branco, 13-11) e no estande do fórum (na entrada principal da USC). Mais informações pelo telefone (14) 235-7174.