O arquiteto João Batista Martinez Corrêa, 60 anos, foi um dos milhares de brasileiros que trabalharam no Iraque no início dos anos 80. Coube à empresa em que ele trabalhava projetar um dos mais ambiciosos - e, até então, menos divulgados - projetos de Saddam Hussein: a construção de um “metrô-labirinto” sob a milenar capital Bagdá.
“Era um projeto para resolver o problema de transporte coletivo, mas ao mesmo tempo, tinha características de funcionar como abrigo em caso de guerra”, lembra Corrêa. Coordenada por um grupo inglês, a empresa em que trabalhava o arquiteto estava fazendo um projeto detalhado de 11 estações, na parte histórica de Bagdá.
Segundo Corrêa, o sofisticado projeto comportava, além do túnel do metrô, vários corredores de acesso em forma de labirinto interligando diferentes pontos da cidade, com estrutura para suportar até mísseis de penetração. Na época, o Iraque - com a ajuda de americanos e ingleses - estava em guerra contra o Irã, conflito que durou até 1988.
“Além da estrutura super-reforçada para suportar uma certa carga de bombas, seria usado como escudo”, diz o arquiteto. Os sistemas, como o de ventilação e eletricidade, seriam também todos em dobro. “Havia um sistema de energização bem protegido, independente, que poderia funcionar (o metrô) em baixa velocidade como meio de se locomover por dentro da cidade”, acrescenta.
Entre 1982 e 1985, Corrêa esteve no Iraque diversas vezes. Com o agravamento do conflito contra o Irã, os brasileiros começaram a deixar o país e o inusitado projeto do metrô, ao que consta, foi abortado. Quanto aos labirintos, o arquiteto não sabe responder.
De acordo com Corrêa, Bagdá era um local bastante agitado no início dos anos 80. Os hotéis estavam sempre cheios, com gente de todo mundo, que começaram a rarear com medo do conflito. Brasileiros, havia desde peões de obra a engenheiros, além de trabalhadores da Volkswagen - responsáveis pelos Passat “brazíli”. “A gente andava pelo país e o pessoal falava: ‘Isso foi feito pelos brasileiros’”, conta Corrêa.
A indústria bélica brasileira também era bastante presente, como a empresa de armamento Avibrás. “A gente achava, no início, que a Avibrás era fornecedora de aves, mas era de armas”, diverte-se o arquiteto.
Ainda segundo Corrêa, Saddam era uma pessoa muito exigente com as construções públicas, de acabamento rigoroso. “Se desse qualquer alteração, ele mandava quebrar e fazer tudo de novo”, diz.
Arquitetura
Corrêa, paulistano, recorda-se da arquitetura “muito específica” do Iraque, principalmente por causa do calor rigoroso. As casas são todas bem ao lado das outras, com presença constante de pátios internos. “Se fazem edificações isoladas, elas estão muito sujeitas à insolação e se tornam insuportáveis”, diz.
Certa vez, lembra, os alemães construíram uma larga avenida - a chamada Califa street -, cuja dimensão desagradou à população. “Essa avenida era grande, bem larga, e não deu certo por causa disso: eles criaram uma cicatriz na cidade, uma abertura muito grande onde as pessoas não se sentiam bem”, descreve. Resultado: a avenida foi estreitada e as calçadas ganharam cobertura.
O modo ocidental de comércio também não funciona no Iraque. “Lá não pega esse negócio de supermercado, shopping center. Lá é aquele contato mais pessoal, de convencimento”, diz Corrêa. E completa: “Se você não barganha, não tem graça para eles”.
No início dos anos 80, não havia no Iraque a miséria que se vê hoje - principalmente por conta do embargo econômico desde o fim da Guerra do Golfo, em 1990. Segundo o arquiteto, Saddam era uma presença constante em todos os muros e faixas - até relógios de pulso traziam a face do ditador estampada.
Apesar da popularidade imposta (“Ele se fez popular”), o arquiteto afirma que Saddam foi um dos primeiros governantes árabes a “dividir” com o povo as benesses do petróleo, restritas à elite econômica dos países produtores. O exemplo mais claro, segundo Corrêa, foram os projetos de habitação popular. “Foi o país que começou a socializar o petróleo”, declara.