Cultura

Amigo de Orson Welles

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Uma das passagens mais míticas da história do cinema nacional é a presença do ator, diretor e roteirista americano Orson Welles no País, em 1942.

Famoso nos Estados Unidos, onde tinha acabado de lançar “Cidadão Kane”, que décadas mais tarde seria considerado um dos filmes mais importantes já realizados, Welles veio ao Brasil para filmar “It’s All True” (“É Tudo Verdade”), a história -baseada num episódio real - de um grupo de jangadeiros que resolve sair do Ceará para conseguir uma audiência com o então presidente Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro (na época a capital do País).

Apesar de ser uma produção americana, o filme contaria com a participação de vários atores brasileiros, profissionais e amadores, principalmente entre os cearenses. Contaria, porque a obra nunca ficou pronta. Welles começou a fazer o filme mas não foi capaz de administrar a produção - marcada por contratempos - tendo o seu crédito “cortado” pela RKO, que estava bancando o projeto.

Começa aí a lenda. Welles voltou aos Estados Unidos desmoralizado pela RKO e nunca mais teve a liberdade sobre suas obras como havia tido em “Cidadão Kane”.

Como escreve o jornalista Firmino Holanda em seu livro “Orson Welles no Ceará”, publicado em 2001, o diretor veio fazer um coisa e fez outra. Ao invés de praticar a “política da boa vizinhança”, que o governo Roosevelt incentivava na época, através de um filme, ele o fez na vida pessoal, deixando o cinema em segundo plano.

Ao que tudo indica, segundo Holanda, Welles teria ficado fascinado pelo País e seu povo a ponto quase esquecer o filme.

O livro “A História de uma Vida”, que o advogado José Garcia da Silva escreveu recentemente confirma a tese.

Advogado nascido em Lins e morador de Bauru há alguns anos, Silva elaborou a obra como uma espécie de biografia, com capítulos que narram episódios de sua (interessantíssima) vida. Um dos mais curiosos fala justamente de Welles.

Filho de um imigrante espanhol que fez fortuna no Brasil, Silva morava em Belo Horizonte em 1942, onde estudava Direito. Era um jovem popular, cheio de amigos e freqüentador assíduo do Cassino da Pampulha, um dos mais importantes do País, onde não era raro ganhar um bom dinheiro na campista ou no bacará.

“Estava no Cine Brasil com um grupo de amigos quando conheci o Orson Welles. Ele era um sujeito alto, educado. Disse que tinha ido fazer um filme no Ceará, que tinha passado no Rio e em São Paulo e, por sugestão de algumas pessoas, tinha vindo para Belo Horizonte”, conta o advogado.

Depois de se apresentar, o diretor perguntou se podia ficar entre a turma e, segundo Silva, daquele dia em diante “não saiu mais do pé do grupo”. “Ficamos entusiasmados com ele, quando não aparecia só faltava colocarmos a polícia atrás dele”, escreve o advogado.

Um amigo por uma namorada

O cineasta conviveu mais de um mês com os estudantes na capital mineira. “A gente saia, ia para o cassino, conversava muito. Ele era muito inteligente e simpático”, lembra Silva, na época tratado por “Paulista”, pelos colegas, inclusive Welles.

“Um dia ele chegou para mim e disse que tinha que ir embora. Ele pediu que eu me despedisse dos amigos por ele porque não teria coragem de dizer adeus ao grupo do qual já fazia parte”, conta o advogado.

O diretor também fez um outro pedido. Silva tinha uma namorada que era dançarina no Cassino da Pampulha e Welles queria levar a moça - chamada Pérola - para Hollywood, onde ele acreditava que ela pudesse trabalhar.

Silva não se opôs, pois também achava que a viagem traria muitas oportunidades para a carreira da namorada. “Disse que ela era a interessada no assunto”, diz Silva. Ele conta que fez questão de que o cineasta assumisse o compromisso das despesas da bailarina mesmo se ela tivesse que voltar ao Brasil para garantir que a moça não ficasse perdida nos Estados Unidos. Welles levou Pérola. “Ganhei um amigo e perdi uma namorada”, escreve o advogado.

Welles ocupa apenas algumas páginas da obra de Silva, que ainda não teve um lançamento oficial. Entre observações curiosas e passagens bastante pessoais, o livro ainda traz muitas histórias interessantes sobre as viagens do autor - principalmente pelo interior do Brasil ainda não desbravado por completo - e também sobre outro de seus amigos famosos, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que foi seu vizinho quase na mesma época em que conheceu Welles.

Silva não é um escritor profissional, nem sua intenção era a de produzir uma obra cheia de estilo. Mas usando uma linguagem acessível e agradável, num livro que bancou do próprio bolso, ele conta boas histórias e - nos casos de Welles e também de Juscelino - faz mais do que isso, resgata, mesmo que em apenas poucas páginas, detalhes sobre duas figuras extraordinárias.

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Filme parece carregar maldição

Orson Welles veio para o Brasil para fazer um documentário amigável sobre sobre o País. A Segunda Guerra dividia o mundo entre aliados e os membros do eixo e os Estados Unidos precisavam se certificar de que o Brasil continuaria sendo um “amigo leal”. Uma das maneiras de fazer isso foi levando o País para as telas de cinema. E desse modo Carmen Miranda se tornou uma estrela internacional e Walt Disney criou o Zé Carioca.

Welles, aos 26 anos, era tido como um menino-prodígio do teatro, do rádio e do cinema, mas não conseguiu cumprir a tarefa de rodar o documentário. Decidiu fazer um longa de ficção baseado em fatos reais e se perdeu. A tragédia começou a se formar quando Jacaré - um dos jangadeiros que na vida real tinha feito a viagem para falar com Getúlio - morreu durante as filmagens.

Os problemas prosseguiam enquanto Welles se encantava com o País mas tentava por telefone e telégrafo, controlar a montagem de seu segundo filme, “Soberba”, a cargo de Robert Wise (que mais tarde dirigiria “A Noviça Rebelde” e “Amor Sublime Amor”).

O diretor foi fazendo imagens do que gostava mas estas pareciam desconexas para os executivos da RKO, que as recebiam nos Estados Unidos. Segundo eles, como diz Holanda em seu livro, as fitas só mostravam “gente preta, pulando de um lado para o outro”.

A produtora o chamou de volta e fez questão de publicar um anúncio nos jornais brasileiros dizendo não assumir nenhuma responsabilidade pelos atos praticados por Welles no Brasil.

O cineasta, morto em 1985, nunca mais teve poder na indústria. Até fez mais filmes memoráveis, como “A Marca da Maldade”, por exemplo, mas sempre sofrendo com montadores inescrupulosos e tendências do mercado.

As cópias de “It’s All True” ficaram muito tempo perdidas, se deteriorando nos arquivos da Paramount (que comprou a RKO). O editor americano Richard Wilson, que trabalhou com Welles, até tentou montar o filme (ou o que sobrou dele) e conseguiu criar uma versão, mas morreu, em 1991, sem assisti-la. Dois anos depois a cópia foi lançada mas percorreu o circuito alternativo americano sem chamar atenção e, como resultado, se perdeu novamente.

Parece maldição das bravas mas é fato. E, assim, a lenda não termina.

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