Vinte e três milhões de iraquianos estão livres de Saddam. Hoje, xiitas podem reivindicar o comando do país, a minoria sunita tem voz e os curdos do Norte estão livres do rancor de um governo ditatorial em Bagdá. A conseqüência mais visível da operação militar aliada foi a liberdade do povo, amplamente divulgada pela imprensa, que registra a pressão dos diversos grupos da região para fazer parte do novo governo. Tudo foi realizado com um mínimo de perdas de civis e militares.
Este banho de liberdade vivido pelo povo do Iraque só foi possível porque as forças aliadas, lideradas pelos Estados Unidos e Inglaterra, contrariaram as declarações desfavoráveis ao conflito vindas da Rússia, Alemanha e especialmente da França. Estes países, ditos “pacifistas”, somente deixaram de ser sinceros com o mundo quando não contaram que o principal motivo de seu suposto pacifismo era baseado nos fortes laços comerciais que estes mantinham com o regime de Saddam.
Quando a vitória da coalizão já tomava contornos definidos e irreversíveis nas terras da antiga Mesopotâmia, a Casa Branca recebeu um inusitado telefonema. Diretamente de Paris, era o presidente Jacques Chirac. Tudo indica que esta foi a primeira conversa entre Bush e Chirac desde o dia 7 de fevereiro, quando a tensão no Conselho de Segurança chegava ao seu ápice. O presidente gaullista falou com Bush durante 20 minutos, quando alegou que a França adotaria uma “postura pragmática” em relação ao Iraque e que desejava reparar as relações entre Paris e Washington. Enquanto os franceses classificavam a conversa de “positiva”, Ari Fleischer foi direto: “foi uma conversa de negócios”.
No mesmo momento, Schroeder encontrava Tony Blair em Hannover. O discurso da Alemanha vinha no mesmo sentido. De forma hábil, Blair, aliado de Bush, defendeu a presença da ONU na reconstrução do país, posicionando-se, assim, como talvez o único elo seguro entre a América e a Europa, o que pode levá-lo a uma posição de confortável liderança no Velho Mundo.
A diplomacia francesa já iniciou movimentos concretos no sentido de participar da reconstrução do Iraque. A iniciativa de apresentar uma proposta para suspender as sanções civis imediatamente é a prova desta mobilização. Assim, seria mantido o programa “petróleo por comida” e o embargo em relação às armas. Os americanos, contudo, estão cientes da estratégia usada pela França.
Paris assumiu uma posição forte e enfática, liderando o bloco “pacifista”. Não há dúvida de que este posicionamento criou ressentimentos e terá conseqüências diplomáticas. Autoridades americanas discutiram, na última semana, o grau de eventuais medidas contra a França. Neste seleto grupo, de quatro membros, dois falcões se apresentam com grande força, Lewis Libby e Eric Edelman, ligados ao vice-presidente Cheney. Além destes, fazem parte do grupo Stephen Hadley, assessor de segurança nacional e Marc Grossman, subsecretário de Estado para assuntos políticos. Vale lembrar que Colin Powell, considerada uma das vozes moderadas na administração, respondeu afirmativamente quando questionado se a França sofreria algum tipo de conseqüência por sua atitude. As medidas podem ser tanto no âmbito da Otan, quanto em relação ao rebaixamento do status francês em algumas reuniões de cúpula.
A França, sem dúvida, apesar de ter moderado seu discurso após a vitória aliada no Iraque, atingiu profundamente os Estados Unidos com sua eloqüência pré-conflito. Sua importância internacional, que diminui ao longo dos anos, tende a sofrer mais impactos, especialmente com a condição de liderança européia assumida por Blair. Além disto, França e Alemanha possuem graves problemas domésticos que precisam de solução. O horizonte, visto de Paris, não parece ser dos mais animadores. A França, que era contra o conflito e não ajudou nas operações, agora deseja se aliar aos vencedores para obter vantagens comerciais. Esta é, no mínimo, uma atitude curiosa, para não dizer hipócrita. Os estragos foram grandes e a diplomacia francesa tem muito trabalho pela frente. (O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado)