Saúde

Médico trata dor com aulas de culinária

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Estudioso das cefaléias há vários anos, o clínico-geral Alexandre Feldman adotou a cozinha de sua casa como parte fundamental do tratamento para seus pacientes. Três vezes ao mês eles se reúnem para aulas de culinária. Feldman defende que mais do que de remédios, quem sofre com as dores de cabeça freqüentes precisa adotar hábitos saudáveis, o que inclui atividade física, sono e alimentação.

“Portadores de enxaqueca possuem um desequilíbrio bioquímico no cérebro que é agravado por diversos estímulos. A alimentação é o principal deles”, afirma.

O médico conta que começou a estudar a relação dos alimentos com as cefaléias por volta de 1996. Pesquisando a composição dos alimentos e os benefícios que eles trazem ao ser humano, ele descobriu que muitas substâncias contribuem para desencadear as crises e decidiu incluir a reeducação alimentar no tratamento que oferecia a seus pacientes.

“A alimentação da maioria das pessoas fugiu muito do que hoje se reputa como saudável. Então, quando a gente passa uma dieta para alguém, a pessoa pensa logo que estamos tirando do seu cardápio tudo o que é gostoso. Pensando assim, elas ficam desestimuladas e não conseguem seguir uma alimentação saudável por muito tempo. Por isso, decidi organizar as reuniões ao pé do fogão”, explica.

Cada reunião dura entre duas e três horas. Neste intervalo, os participantes discutem e experimentam alternativas para utilizar os ingredientes da dieta em pratos saborosos.

De acordo com o médico, é um processo de conscientização. Nos primeiros três meses, os pacientes ficam proibidos de ingerir uma série de produtos. Depois, eles até podem voltar a comer os alimentos “proibidos”, mas de maneira mais consciente e equilibrada. O objetivo é não sobrecarregar o organismo e prevenir as crises de enxaqueca.

Feldman explica que a dor de enxaqueca compreende um estado inflamatório do organismo. “Existe uma gama de alimentos que são pró-inflamatórios, ou seja, eles desencadeiam reações do sistema imunológico. Não queremos que o corpo esteja predisposto à inflamação, então, é bom evitar alimentos pró-inflamatórios”, sugere.

Proibidos

Entre os produtos “proibidos” na dieta do médico, o leite de vaca é o que mais surpreende. Uma de suas alegações é que os mamíferos, em geral, só se alimentam do leite da própria mãe e assim mesmo por um período muito curto. Segundo ele, o ser humano consome leite de vaca porque isso se tornou um hábito cultivado durante anos.

“Só que as moléculas do leite de vaca são diferentes das do leite humano. Quando ingerimos esse leite, nosso sistema imunológico reconhece essas moléculas como corpos estranhos e inicia um processo de reação que é inflamatório”, descreve.

“Aqueles que têm reações (digestivas) mais fortes são sortudos porque sabem que faz mal e não tomam. Em todos os outros, as reações são subclínicas e a pessoa continua tomando o leite e sofrendo as reações”, completa.

Questionado sobre o cálcio presente no leite, Feldman diz que estudos recentes contradizem a relação do leite na prevenção da osteoporose, por exemplo. “É muito simplista o raciocínio de que basta ingerir cálcio para evitar a doença. O cálcio não vai virar osso necessariamente (...) Além disso, temos inúmeras outras fontes de cálcio na natureza”, salienta.

Além do leite de vaca, a dieta do médico preconiza a suspensão de café, chás, estimulantes (pó de guaraná), sucos (mesmo os naturais), refrigerantes, açúcares, adoçantes, mel, pães (inclusive os integrais), massas (exceto as integrais), batatas, mandiocas (amidos em geral) e farináceos.

Também ficam proibidos os alimentos muito gordurosos, óleos vegetais (exceto o azeite de oliva extravirgem), margarina, gordura hidrogenada (ver rótulo dos produtos industrializados), carne de frango (exceto o criado sem hormônios e antibióticos), frutos do mar, glutamato monossódico (ver rótulos), aditivos artificiais (conservantes, corantes, etc.), embutidos, enlatados e frituras.

Feldman salienta que todos estes alimentos têm propriedades pró-inflamatórias, ou seja, são irritantes ao organismo. Em seu tratamento, o médico recomenda que eles sejam radicalmente cortados da dieta nos primeiros três meses, como num processo de desintoxicação. Depois, eles podem voltar a fazer parte das refeições, mas com muito equilíbrio, em pequenas quantidades e sempre combinados com outros alimentos saudáveis.

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