Sujeito tão competente e agradável para os amigos que nem sei como deu de beber todos os dias. Nem mesmo ele sabe. Dizia-me entre um copo de cerveja e uma dose de conhaque: “Eu não sei se virei alcoólatra porque a minha mulher me deixou ou se a minha mulher me deixou porque eu era um alcoólatraâ€.
Tive que ouvi-lo quando ele gritou meu nome da porta do bar, justamente quando iniciava minha caminhada vespertina. Até por compaixão. No tempo de sobriedade a conversa dele era agradável e proveitosa, cheia de tiradas inteligentes, firulas literárias ou reminiscências do cinema cult. Contou que o feliz casamento de seis anos – nem sempre feliz, é verdade – tinha chegado ao fim. “Amor, respeito, carinho, interesse sexual, essas coisas que mantêm as pessoas juntas, também acabam†– sentenciou.
Tinham até chegado a um modus vivendi. Um não iria interferir na vida do outro e bola pra frente. Cada um na sua. Ela topou. Concordou em, mais uma vez, voltar da casa da mãe com os três filhos para tentar refazer a vida em comum com o marido. Mas sem intimidades... Negócio fechado.
No dia em que o Palmeiras perdeu de 7 a 2 para o Vitória da Bahia ele viu o jogo no bar e voltou carregado pela turma, por volta da meia-noite. Entrou no quarto como um stripper adoidado. Sapato prum lado, roupas para o outro. Ficou nu diante da mulher acordada pelo barulho e o brilho cegante de luzes acesas de repente. Olhou assustada para o marido pelado e aquele retalho de papel higiênico estranhamente grudado na glande.
- Que é isso!
- Que é isso o que, nunca viu?
Era só o que faltava. A mulher recolheu as roupas às malas ainda nem totalmente desfeitas. Pegou os filhos e se mandou de volta para a casa da mãe.
Se ela saiu assim, sem tentar compreender a sua dor, seu sofrimento, é porque realmente não tinha mais amor. Aquela goleada do Palmeiras contra uma adversário da Bahia, em pleno Palestra Itália, o feriu de morte. Enfiou o pé na jaca, tamanha a depressão que sentiu.
Nunca soube quantas cervejas e doses de quebra-gelo tomara. Acordou subitamente com o grito de “olha o gáááás†achando que estava sonhando. “Isso é hora de vender gásâ€, foi tudo o que conseguiu pensar.
Levantou cambaleante. Tudo doía. No espelho do banheiro, um recado simples e direto: “Cansei. Não me procure maisâ€. Passava das duas da tarde. “Putz, perdi a reunião da diretoriaâ€, se deu conta, a cabeça latejando. Várias mensagens no celular.
Desde então falou pouco com a mulher, a essa altura ex-mulher. Ela só quer saber se a escola das crianças foi paga e se a prestação da picape está em dia. Ele a comprou com o maior sacrifício e ela levou na mudança.
Contou que não tem saído. Detona uma garrafa de uísque por noite, na sala de casa, assistido pelo cachorro que ela jamais suportou e por isso ficou.. Sabe que não precisa mais se preocupar com reunião de diretoria e que não terá mais mensagens no celular nas manhãs de segunda.
Ele só não conseguiu ainda entender se bebe porque foi demitido ou foi demitido por que bebe além da conta. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)