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Entrevista da semana - 'Formação do docente é nó da educação'

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 8 min

Se a maioria dos alunos de 8'.ª série - 61,8% - obteve desempenho insatisfatório ou insuficiente no Sistema de Avaliação do Rendimento do Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) em 2001, para a professora Virgínia Rebeis Farha a responsabilidade também é dos professores.

Na opinião dela, eles enfrentam dificuldade em transmitir o conhecimento adquirido porque são vítimas de formação deficiente e de salários baixos. As conseqüências desse “nó” alternam entre o desestímulo na sala de aula e a evasão escolar.

Suas colocações são respaldadas em 40 anos de experiência na área, trabalho que foi recompensado com a admissão na Ordem Nacional do Mérito Educativo. A homenagem da Presidência da República foi concedida em novembro do ano passado, três anos após encerrar suas atividades no Ministério da Educação (MEC), onde atuou no Departamento de Políticas Educacionais da Secretaria de Ensino Fundamental.

Quando esteve em Brasília, ela elaborou os atuais parâmetros educacionais. Porém, sua carreira foi alicerçada em Bauru. Aqui, ela assumiu a Divisão Regional de Ensino após dar aulas durante 20 anos na escola estadual Stela Machado.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade - Como são elaborados os parâmetros educacionais? Virgínia - A gente estabelece conhecimentos que o aluno tem de adquirir em cada momento de seu currículo escolar. Procuramos estabelecer o que ele deve aprender em tal fase de seu caminho escolar e de que forma.

JC - As diferenças sociais são levadas em conta durante a elaboração dos parâmetros curriculares? Virgínia - Uma criança com 5 anos que toma conta do irmãozinho de 1 ano (...) procura saber onde encontrar alguma comida, por exemplo. Essas crianças, nos primeiros anos de vida, são mais espertas do que as outras que estão muito protegidas em suas casas. Elas são empurradas pela própria vida para encontrar soluções para seus problemas. Elas chegam a ter uma desenvoltura maior para obter aquilo que precisam. No decorrer do tempo é que se estabelece a defasagem entre a criança mais protegida e a menos protegida. Isso acontece no campo cultural.

JC - O importante é identificar o que ela tem de repertório? Virgínia - É necessário saber como é que ela cria condições para aprender mais. Aí se estabelece um hiato, pois é preciso que haja um entrosamento entre a linguagem do professor e a do aluno. É importante considerar que as crianças aprendem, sejam pobres ou ricas.

JC - Mas a cognição não está diretamente ligada às questões emocionais ou físicas? Virgínia - Durante muito tempo imperou uma tese de que as crianças mal nutridas tinham intelecto menos desenvolvido. Os cientistas já provaram que não. Quando a criança chega a um estado de ser afetada por desnutrição, normalmente perece. As crianças, por força das circunstâncias, podem ter um desenvolvimento físico mais abatido, menor. Ou, por razões emocionais, serem mais tímidas ou introspectivas, mas elas têm capacidade de aprender. A criança tem condição de aprender, não importa o seu status socioeconômico. Mas o nó está na escola saber dar o atendimento adequado para cada uma das crianças.

JC - Qual foi o resultado da avaliação que o MEC fez dos livros escolares? Virgínia - Foi constatado que a quantidade de livros ruins era muito grande. Havia livros com erros conceituais absurdos.

JC - Dê um exemplo. Virgínia - Um livro de história dizia que Brasília nasceu no meio da mata no dia 21 de abril. Um outro livro recomendava que a criança ligasse um ferro de passar roupas na tomada e aguardasse uns minutinhos para depois colocar a mão. Essa experiência para mostrar a condução do calor poderia provocar um acidente. Tem ainda aquele caso famoso de orientação para picada de cobra. Qual atitude deve ser tomada em caso de picada (dizia o livro)? Você deve pegar um objeto cortante, perfurar em volta, chupar o sangue para tirar o veneno e fazer um torniquete bem forte. O Butantan disse que isso é absolutamente errado. Primeiro porque você não vai sugar o veneno, segundo porque isso pode provocar uma infecção e, terceiro, o torniquete pode provocar gangrena.

JC - Lançaram mão da progressão continuada para coibir a evasão escolar e a exclusão, mas mesmo assim, ouvimos casos de marginalização em sala de aula... Virgínia - O nó desse problema está na relação professor e aluno. Aí entra uma coisa que é absolutamente vital: a competência do professor. Fica pesado eu colocar a coisa desse jeito porque parece que o professor não sabe nada. A gente nunca sabe tudo mesmo. Tem muita coisa cujo conhecimento me fez falta. Mas a formação do professor é uma coisa questionável ainda hoje. Por mais esforços que tenham sido feitos nessa área, ainda há um zelo menor das universidades para formar o professor. Isso é tão verdadeiro que a educação é considerada o primo pobre.

JC - A baixa remuneração é uma causa direta dessa situação? Virgínia - Eu estou abordando uma questão vital. Qual é a formação desse professor? É ótima, excelente? Ou deixa a desejar? Deixa a desejar. Porque não existe nas universidades uma proposta séria para formar professores. Existe para formar médicos, formar dentistas. Mas não existe para formar professor. Ao observar currículo, você percebe que ele é carente. Claro que a questão salarial é grave. Se eu ganho pouco, eu não posso comprar material e também não vou freqüentar cursos porque não sobra tempo, já que eu preciso dar o maior número possível de aulas.

JC - A situação prejudica a relação que o professor tem com o aluno? Pode favorecer a evasão? Virgínia - Quando eu vou para a escola e encontro um professor que está cansado, não sabe tudo o que precisa saber e que não sabe se relacionar direito, vou ter dificuldade. O professor não vai nem perceber o que o aluno precisa aprender.

JC - E a reprovação? Virgínia - A reprovação é uma coisa horrível. Reprovar um aluno é uma coisa medonha porque o aluno vai ter que fazer um outro ano e vai ver coisas que ele já viu. Ele não aprendeu tudo, mas também não perdeu tudo. Quando você vai ver coisa nova, pode até ter interesse, mas quando vai ver coisa velha, aquilo que já sabe, vai achar maçante. Existe um desestímulo em aprender. A reprovação é uma coisa ruim.

,JC - Muita gente defende a idéia da progressão continuada, mas discorda da maneira como está sendo aplicada. Virgínia - A escola tinha que criar um sistema em que o aluno fosse atendido na sua dificuldade no momento certo, sempre. Aí não fica lacuna, ele vai crescendo, crescendo...

JC - Qual é a opinião da senhora sobre a progressão continuada? Virgínia - Como ela não dá condições efetivas para que as lacunas sejam completamente preenchidas, ela chega a ser irresponsável. O exercício da cidadania exige que você tenha conhecimento, tenha autonomia, poder de decisão. Como é que você vai adquirir isso? Eu não vou te dar a receita, porque eu também não sei. A repetência é sempre ruim.

JC - A senhora acredita que os problemas da educação possam ser revertidos com a formação do professor? Virgínia - Só freqüentar o banco escolar não vai resolver, como só ganhar um bom salário também não. O que não dispensa freqüentar a escola, como não dispensa ganhar bem.

JC - O MEC não tem como intervir nesse problema? Virgínia - Com as reformas programadas pelo MEC, os professores terão um desempenho melhor, o que vai propiciar ao aluno a possibilidade de aprender mais. Se isso ocorrer, os sistemas começam a desinchar. Os sistemas estão inchados com a repetência. A progressão continuada tentou desinchá-lo. Caso contrário, não há escolas que chegue nem salas de aula. Assim, os recursos poderão ser aplicados no fortalecimento da própria escola e na formação do professor, que tem de ser mais sólida e melhor. O nó da educação está aí, na formação do professor. Na seqüência, está no salário. Em primeiro lugar a formação, em segundo lugar o salário.

JC - A gente pode dizer que investimentos na formação dos professores e a revisão dos salários recuperariam a educação brasileira? Virgínia - Sim. Mas um investimento efetivo na melhor formação do profissional, não com essas coisas que são panacéias. Cursinhos para cá e para lá, que faz de conta que é, mas não é. Eu não estou falando mal do professor, mas mal da formação. Eu estou falando que as universidades não têm tratado seriamente a questão da educação.

JC - O MEC não fiscaliza os cursos? Virgínia - Fiscaliza. Um sistema tem de ser avaliado. A avaliação mostrou tanta coisa ruim. Estou falando do que foi possível constatar. Cursos horrorosos de onde saíram profissionais. O que você espera de um profissional mal habilitado? Um mal desempenho. Quando eu saí (do MEC) no final de 99, a avaliação dos cursos formadores de professores ainda não havia sido feita.

JC - A senhora está colocando todo o peso das dificuldades na educação na questão da formação? Virgínia - Estou. Estou dizendo que a universidade não cuida adequadamente da educação. Eu acho que isso é provocador do problema. Tem o professor que vai bem, apesar da faculdade. Eu acho que se ela (a formação) não é a responsável absoluta, eu diria que é a grande responsável. As universidades como centros produtores de conhecimento são imprescindíveis, mas deveriam dispensar mais atenção com a formação dos educadores.

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